domingo, 3 de janeiro de 2016

SABEDORIA

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Diz-se da sabedoria que é uma junção de conhecimentos, experiências, astúcias, inteligências, percepções, autocontrole, presença de espírito, intuição e tantos outros aspectos que conduzem o comportamento humano. Podando nossos vícios, exaltando nossas virtudes e influenciando nossa atuação na vida.
A palavra, o conceito sabedoria, possivelmente, não tenha uma definição única. E, provavelmente varie de cultura para cultura. Pois cada uma tem seu cheiro, sua cor, suas nuances  e aspectos que considerem mais importantes que outros. Mas, talvez, a atuação lúcida e atenta no cotidiano  e na administração da vida seja uma das premissas em comum. E, sem dúvida difíceis de praticar. Pois, conseguir frear emoções eventuais e imprevistas, aquelas que nos assaltam de surpresa,  que nos contaminem o juízo de valor necessários a uma ação justa ou que cause menos danos, não é tão comum. Manter o olhar e a mente limpa não é para qualquer um.
Saber ouvir, saber ver, saber sentir, saber falar, saber.... Ser um filtro pronto para aprender, absorver o que nos serve em todos as experiências que vivemos, conectar os nós que, de fato, sejam importantes para a tessitura da rede que vai nos compor, e que seja coerente com o lugar que estamos, com as relações que temos, os objetivos e sonhos que nos povoam é uma seleção difícil, que requer clareza, silêncio e feeling.
Sabedoria é uma palavra imbuída de aura, de mistério. E essa distância faz pensarmos ser inalcançável. Só o será à medida em que acreditarmos nisso,  e deixarmos de prestar atenção e dar utilidade a tudo o que nos acontece, que nos forjará esta vestimenta a partir de uma certa medida de experiência e responsabilidades no exercício de nossas vidas.
Que nessa mais nova empreitada desse caminho que já empreendemos, adquirir sabedoria seja a coluna de fogo que nos guie à noite e a de nuvens boas que nos oriente de dia.

Feliz 2016

domingo, 8 de novembro de 2015

OS CÓDIGOS E A NOSSA ESQUIZOFRENIA

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Nota: este texto é uma romantização histórica.
Quando saímos do nomadismo e deixamos a era das cavernas, nos fincamos num pedaço de terra demarcado perto de tudo o que nos possibilitasse sobreviver, e começamos a instituir regras que nos interessasse: 1) a manter o controle sobre o outro; 2) que mantivesse a organização do que já havíamos instituído. (possivelmente nessa ordem). E percebemos então, que a pasmaceira nos alcançara. A vida não tinha mais a graça e aventura do nomadismo: uma paisagem a cada dia, os perigos da trilha, a bola de neve dos acontecimentos que nos mantinham ativos e desenvolvia nossas potencialidades, principalmente as do movimento, já não existiam mais. E começamos a fossilizar. Logo, atrapalhar a felicidade alheia se tornou um bom divertimento, principalmente quando a justificativa era a de proteção da gente mesmo e das instituições que criamos, com o mesmo fim, é claro. Aí inventamos as normas e regras sociais, os "não pode". Para preservar o patrimônio: monogamia (não somos monogâmicos); para punir os instintos: as leis; para manter o controle das ações alheias na convivência social: os protocolos comportamentais. Que, inclusive, permitem banir, sem ser criticado, qualquer um que não se encaixe. E ai estava cristalizada  e oficializada a hipocrisia e o abuso de poder.
Se livrar de milênios de construções de falseamentos e buscar a felicidade nos entre-lugares  das normas e das regras não é fácil. Isso para não ser pessimista e aventar a sua impossibilidade.
Todas as regras de convivência, os meandros de sobrevivência e os modos de produção que nos impulsionam para o 'progresso' são contra os nossos instintos, nossa natureza e, por conseguinte, contra a nossa felicidade. Depois não sabemos de onde vêm tantas doenças, somatizações, mal-estares e fobias.
Somos nosso próprio inimigo. Amamos escondido e nos casamos com quem convém. Ensinamos a solidariedade e praticamos o egoismo. Condenamos o prazer e o vivemos debaixo dos panos como se fosse algo torpe. Instituímos um hospício a céu aberto e construímos um para colocarmos quem não aceita esse paradoxo ou não consegue administrá-lo. Que, na verdade são os verdadeiros sãos, que diagnosticamos como loucos.
A imagem acima é bastante representativa disso. Compreendo que deva ser uma placa, possivelmente numa área de aeroporto (isso se ela existir, pode ser um criação gráfica) mas ela serve para pensarmos uma série de aspectos sobre a nossa maneira de ver normas e regras. Os códigos são direcionados para o sujeito que tem capacidade de decodifica-los e obedecê-los, o que não se aplica ao pássaro, é claro, mas a quem possa enxota-los. O que a torna desnecessária e fora da realidade, Mas, um signo fantástico para metaforizar o quanto somos abusados em relação ao uso do poder e, ao mesmo tempo, a nossa natureza livre.
Bem aventurados os que se mantém pássaros, não pelo ato político da desobediência dos disparates que designam abuso de poder, mas pela manutenção do estado de analfabetismo em relação aos códigos e de liberdade em relação à vida.

sábado, 31 de outubro de 2015

EM PARTE....

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Um garoto de rua, aparentando uns 10 anos, entra no saguão de um cinema na zona sul do Rio de Janeiro. É rechaçado, óbvio.
Em parte, o segurança tem razão.
Em parte, o menino tem o direito.
Em parte, ele constrange os 'outros' (nós).
Em parte, ele poderia entrar só para olhar...e ver como são os outros, como se comportam, o que fazem ali. Só para decidir se se deslumbra e sonha ser igual ou se odeia.
Em parte, um lado tem razão,
Em parte, o outro também tem.
Mas em qual  parte somos responsáveis pela divisão das partes?
A miséria não vem da natureza, não é desígnio divino, uma conflagração cósmica punitiva. Ela é produção humana intencional.
Em que parte da história nós decidimos que a existência do miserável nos serviria?
Em que parte da história percebemos que o incômodo acompanhava a serventia?
Em que parte da história criamos estratégias para separar o incômodo da parte que nos servia?
Em que parte passamos a ter prazer em separar esse incômodo como um selo de superioridade?
Em que parte dessa história a gente vai se dar conta de que essa brincadeira de mal gosto já não cabe numa mão e escorre pelos dedos...
Em que parte dessa história a gente se dá conta de que está perdendo o controle.
Em que parte dessa história a gente ganhou?
Em que parte dessa história a gente perde?
Experimente ouvir 10 nãos num dia e observe como você chega ao final desse dia. Só para termos um simples lampejo do ódio que nos aguarda.
Em parte, somos responsáveis, pela criação do exército de desvalidos, miseráveis, chamado exército reserva,  através do usufruto dos produtos produzidos que consumimos. A gente só não gosta do cheiro da vizinhança....
...Em que parte a gente muda tudo?!


domingo, 25 de outubro de 2015

PROCURA-SE

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Procura-se pessoas que tenham coragem...
Coragem de ser elas mesmas, de mostrarem suas fraquezas, fragilidades e protegerem-se com a boa administração do acaso e presença de espirito.
Procura-se pessoas que tenham  forças para descortinar hipocrisias, não tenham medo do que vão ver e saibam conviver com a dor.
Procura-se pessoas destemidas que olhem o caos que é a vida, não com vontade de doma-la, mas de vivê-la de acordo com suas potencialidades.
Procura-se pessoas sem correntes. Gente sem grilhões nem por dentro nem por fora.
Procura-se, urgentemente, loucos inteligentes, disfarçados de pessoas normais. Seres perspicazes que se misturaram, se imiscuíram e pagam os preços em silêncio.
Procura-se quem não quer agradar.
Procura-se o espirito que encarnou para viver e está conseguindo.
Procura-se aquele de quem todo mundo ri.
Procura-se aquele que caga e anda para o mundo, e pela fresta da janela goza com o mais bonito alvorecer.
Procura-se aquele para quem a neve que cai no escurecer do dia tem graça. Aquele a quem a chuva não insufla xingamento, Aquele que sabe apreciar os detalhes que ninguém vê.
Procura-se.....vivo.




domingo, 6 de setembro de 2015

MACHISMO

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"Ninguém jamais vencerá a guerra dos sexos: há muita confraternização entre os inimigos"
(Henry Kissinger)

O machismo sempre existiu. Mas, ultimamente está em voga. Tudo é machismo, se um home ri de uma mulher que escorregou na calçada...é machismo. Não deu lugar a uma mulher no transporte público ...é machismo.  Roubou o momento de sucesso de uma colega de trabalho...é machismo. Estamos esquecendo que falta de educação existe, que mal-caratismo existe, que inveja existe e tantas outras mediocridades e mesquinhez da índole humana, e colocamos tudo o que vem de um homem em relação a uma mulher na conta do machismo.
Obviamente sempre haverá uma pitada de, mas isso não significa que o seja em essência. O machismo não é uma norma social instituída como o casamento e a monogamia. Ou uma classificação discriminada como adultério para fins de identificação e encaixe numa norma social. O machismo, entendido como o exercício de superioridade do homem em relação à mulher, é dado como natural. (Deus quis e assim instituiu através das diferenças naturais e não se questiona). Isso é engendrado em nossas vidas através da cultura, dos costumes, e principalmente, das religiões e inoculado em nossas medulas desde que nossos pais descobriram a que gênero pertencemos. E ali começam as diferenças sutis, carinhosas, imbuídas de proteção e aconchego: "proteja sua irmã, ela é menina"... "Isso não é para menina"...tire seu irmão daí...isso é coisa de mulher". As profissões de poder são para os meninos, as subalternas são para as meninas. E assim vão se acirrando as diferenças à medida que crescemos. Essas diferenças, além de serem anatômicas e fisiológicas, passam a ser morais, sociais e que se dispõem em superioridade e inferioridade, ao invés de serem simples diferenças que nos completam. E nossos pais, por mais que tentem, é impossível resolver essa questão no âmago de sua existência em, apenas, uma geração.
A celeuma da superioridade masculina é ontológica, vem de longa data e passeia pelos meandros históricos e religiosos como algo institucionalizado. Muita coisa mudou? Sim. Em 100 anos passamos de "Senhor, meu marido" para "Tá, fulano"; passamos de pessoas que não tinham inteligência para votar, em eleitoras; de 'entes' que não precisavam ler, porque a função era parir, em escritoras profícuas.Num interstício de 100 anos as gerações mais duras morreram e deram lugar a outras que mudaram seu comportamento a partir da memória de incômodo e desconforto do que era viver daquela forma, e ensinaram aos seus filhos, às gerações futuras, que farão o mesmo num ciclo de evolução lenta, que tem funcionado. Os avanços foram empreendidos através de  experiências dentro das realidades cotidianas, sem histerismos. E ainda acontecem e continuarão a acontecer, pois a vida é devir. A igualdade de direitos é necessária, e hoje, real, em pleno aperfeiçoamento. Mas, independente desses avanços todos, homens também têm inveja de mulheres de sucesso, e isso não é machismo, é mediocridade humana. Acomete a todos os que vão ao banheiro.
Quando nos ocorrer o afã de chamarmos  as situações mais gritantes do cotidiano de machismo, olhemos para o lado e vejamos e percebamos as silenciosas: o colega de trabalho que te trata bem, que te abraça e tira de você uma oportunidade de crescimento para a qual você tem cabedal (formação/títulos) e dá para um outro colega porque o salário é alto e mulher não precisa disso, tá de bom tamanho as migalhas que caem da mesa....isso  é machismo, e você continua sendo muito bem tratada pelo seu amigo. Salvo os casos de violência, em que o exercício de 'superioridade' é patológico, o machismo vem com carinho, subestimação de inteligência e usando o que temos de mais precioso, o afeto, e a condição de acreditar no ser humano e na sua, possível, nobreza e essência de bondade. O machismo é exercido dentro de casa, no trabalho, no meio de nossos amigos, hediondamente com um sorriso. Mas a isso não chamamos de machismo.
Vencemos o machismo estudando, trabalhando, pagando nossas contas, sendo felizes, sem precisarmos de histrionismos, sem precisar gritar. Afinal, o que é, é, não precisa de publicização. Houve épocas em nossa História - e falo de Brasil - em que uma mulher não tinha direto a herança de seus pais se não fosse casada. Hoje construímos nosso próprio patrimônio no nosso nome. Quando a gente não faz o caminho de volta, não percebe quanta coisa já foi  mudada,  continua mudando e vai mudar. Agora, gritar que TUDO é machismo, não dá. Isso só contribui para quebrar a coerência de um movimento que vem se fazendo forte e profícuo.
Se pensarmos bem, a histeria é tudo o que o machismo precisa para nos chamar de incoerentes. Não nos esqueçamos que quem gera os homens, decide se vão ou não nascer - tendo ou não legalização do aborto - e os educamos, somos NÓS. E isso é PODER. Mas chamarmos essa linha de raciocínio para o rinque a gente não quer, não é não? A corda puxa para o nosso lado, e  a responsabilidade pesa nos ombros e mudamos de assunto. É mais fácil nos fazermos de vítimas com a velha pecha do machismo para tudo.
Que machismo existe, existe. Mas ele se manifesta muito mais sutilmente do que a gente está querendo ver. Afinal, subestimarmos os machistas, de que seriam indiscretos e pouco inteligentes não é coisa que se faça. É interessante não confundir machismo com péssimo caráter, num contexto em que o indivíduo agiria da mesma forma em qualquer outra circunstância e com qualquer outra pessoa, inclusive de seu gênero; nem com inveja e outros adjetivos comezinhos que acometem a todos os que não são espíritos evoluídos como os serafins e os querubins.
Não somos vítimas coisa nenhuma. Somos senhoras de nossas histórias, só que isso tem preço, resta saber se a gente quer pagar. Até porque, poder a gente pode.
Em suma, a menos que o histrionismo e a vitimização seja parte de uma tática de distração para que olhem para o outro lado enquanto tomamos o poder, é interessante usar o bom senso. Senão até o que conquistamos se perde, e aí se está falando do respeito pela coerência.







domingo, 30 de agosto de 2015

PEDRA-SABÃO

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Descubro que escrever textos não é fácil. Escrever textos? É, a expressão textos traz várias modalidades em si, podemos escrever textos nos outros, com ações, olhares e quereres, podemos escrever textos na forma mais corriqueira que conhecemos, o registro idiomático em suporte com signos blindados, codificados e que seleciona público. Nesta última modalidade existem outras subcategorias: formatos, nichos e modos convencionados de se dizer alguma coisa. Escrever para cinéfilos é uma coisa, escrever para academia é outra coisa, escrever para se deixar um rastro no mundo, é ainda outra.
E nesse ínterim comparo o mundo das letras à pedra-sabão, aquela macia, que em bloco espera o escultor que saiba trata-la para adquirir a forma que a inspiração mandar. O texto, metaforicamente, é a mesma coisa. Uma infinidade de possibilidades, a quem a inspiração ou a vontade de discurso, decide a coluna vertebral e o enxerto vem com as anotações de ideias, lembranças e insights. As anotações que se faz enquanto se prepara um jantar, o pensamento de beira de página enquanto se lê um livro que contribua, ou mesmo durante uma sessão de cinema em que o filme seja um fornecedor de subsídios. Deixamos descansar e depois é só fazer a cola do patchwork e aparar as arestas, lapidar o grosso do conteúdo, dar uma lasca aqui, um corte ali, uma lixada acolá e começa-se a dar forma àquilo que até então era uma ideia perdida, sem pai nem mãe, sem eira nem beira.
Escrever não é transmitir, a gente nunca sabe o que o outro vai ler, como vai receber, nem se aquilo que se queria dizer é o que o outro vai entender, seja porque não houve uma expressão competente, seja porque as redes do outro não são as nossas e ele não passou pelos mesmos lugares, não viu os mesmos filmes, não viveu as mesmas emoções, enfim, é outro. Escrever é se jogar, é se livrar de uma ideia que estava na fila atrapalhando a passagem.Ver a escultura pronta é um prêmio, é o momento em que atesta que a ação é tão importante quanto a ideia, que se não for posta em prática cai no vazio e frustra.
Escrever para o vento e a vida, sobre o vento e a vida exige silêncio de alma. Escrever é deixar um rastro de pensamento e existência, exige coragem. Coragem para falar o que não se fala, coragem da possibilidade de cair no ridículo, ousadia para se libertar como poucos conseguem, deixar os ranços e os momentos de inspiração registrados. Escrever é esculpir, é se expor, é ser subversivo, é usar uma arma. E hoje numa sociedade que pouco lê, e quando lê prefere alguma coisa sem qualidade, ou seja lê mal e por conseguinte não escreve, é uma afronta.
Escrever é como esculpir em pedra-sabão. Talvez, a diferença consista no fato de que o escultor vê sua obra pronta, o escritor nunca. Se alguém não se apossar e disser chega, ela precisa sempre de um enxerto, de uma revisão, de uma frase a mais, de uma frase a menos...e o que sobra vira obra-prima para o outro filho, nunca vai para a lata de lixo. As sobras e as reminiscências contam. O que sobra das "aparações" e dos "lixamentos" são reaproveitados. Escrever, talvez ,seja a melhor forma de reciclagem da vida e do pensamento. Escrever é talento? Pode ser. Mas também é válvula de escape, carma e terapia.
Minha pedra-sabão é um papel e meu entalhador é minha caneta (ainda sou dos que escrevem a mão, como num exercício de caligrafia e que gosta de ouvir o ranger da caneta no papel e curte o deslize que a grafia proporciona, como uma forma de prazer), enquanto isso vejo ao vivo minhas ideias se materializarem. No meu mundo esquizofrênico-beleza me sinto um escultor de ideias admirando o meu exorcismo de mim.
Minha escultura, meu registro de alma, meu rastro...escrever para mim é esculpir sentidos.

domingo, 19 de julho de 2015

O TREM DA VIDA

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Como não aproveitar a vida? Como não se sentir parte integrante de tudo o que nos cerca, principalmente da natureza? Dessa seiva que nos re-energiza, desse caldo mexido de verdes, de sol, de chuva, de vento, de sons de sensações? O mato, a rocha dura, a terra masserada, a montanha, crianças que acenam com tchau para desconhecidos, as flores vívidas no meio do mato seco.
Como não ver isso? Não sentir isso? Há que se fazer muita força, há que se desviar muito o olhar, há que se esconder demais, que se tapear muito a si mesmo. Há que se ter muito trabalho para sentir nada.
Viver dá menos trabalho do que não viver. Para não viver há que elaborar elucubrações intrincadas e difíceis para se convencer de que o que se sente não é o que se sente. De que o que se vê não  é o que se vê. Para não viver há que se ser um inventor muito bom. Inventar um porquê estar aqui, depois criar uma tabela de certezas e convencer muitas pessoas, fazer um clube de não-viventes.
Viver, não. Viver é para qualquer um, para os que têm um corpo e não tem medo das sensações que ele alardeia. É captar sinais, arrumar percepções na alma, enfileirar as sensações e embolá-las todas de novo, deixar-se sentir. Viver é para os que sentem e usam os sensores que têm, os que deixam a vida entrar pelos olhos, pela pele, pela alma e pelos ouvidos e aproveitam cada momento, cada brecha de um momento. Viver é estar ligado, sempre presente e perceptivo. Viver é para qualquer um. E é um dos fóruns em que é maravilhoso ser qualquer um. Estar aqui é mais do que estar aqui, é prestar atenção ao aqui.
Se somos imperfeitos, o lugar que estamos é perfeito para refletirmos sobre o conceito de perfeição, ou, pelo menos,  o que a gente consegue alcançar dele. Perfeito para a gente se conhecer e  evoluir, com paisagens que nos inspiram e situações que nos incentivam, perfeito para nos lapidar.
A vida é curta, mas é lenta. Passa devagar, uma hora por vez, é a gente que vive por atacado. O varejo da vida é muito melhor. De pouquinho em pouquinho, de pastilha em pastilha. Deixemos os blocos grandes para os deuses, que são eternos. A vida é um trilho numa montanha, tem partida e chegada, com subidas e descidas, no meio das pedras, do mato, com floresta densa e clareiras, muitos rios, alguns caudalosos outros mais mansos, mas sempre com muitos afluentes, com túneis escuros e grandes momentos de luz....mas sempre com uma vista espetacular, basta ligar os sensores e querer  usa-los.
Vista de trem entre as  cidades de Mariana e Ouro Preto - MG- Brasil - lugar das paisagens que inspiraram este texto.