domingo, 16 de setembro de 2012

SEGREDOS

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Segredos são nossa verdadeira face escondida. Escondida dos outros e de nós  mesmos. Pelos segredos damos a vida, pelos segredos calamos. Que força tem a palavra que calada nos poupa, nos protege. Que força tem os segredos, que diz quem somos.
Segredos...bons ou ruins são a marca d'agua da nossa alma, do que somos capazes de fazer, de sofrer, do que somos capazes de não mostrar; seja pelo medo, seja por vergonha ou por empobrecer um ato tal que, em segredo, viva eternamente com a mesma força do momento em que aconteceu.
A nobreza da lingua que cala.
Bem-aventurado o que controla seus ímpetos de fala;
Bem-aventurado o que descobre e continua a corrente; 
Bem-aventurado aquele que sabe recolher um segredo;
Bem-aventurado o que não se curva pela língua;
Bem-aventurado os que possuem segredos, mantém os seus e os dos outros;
Bem-aventurado esse 'nipe' de espiritos encarnados que têm um brilho diferente e vêem a vida de uma outra forma, que têm o referencial em si mesmo e respeita o perímetro da vida alheia.
Quão admirável são os olhos que contemplam, os lábios que calam, a alma que aprende e o gesto que agradece.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O BATMAN DE NOLAN

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Trilogia Batman. Aventura, drama, fantasia e ação Elenco: Christian Bale, Michael Caine, Gary Oldman, Morgan Freeman;Produtores: Emma Thomas, Charles Roven, Larry J. Franco; Trilha Sonora: Hans Zimmer, James Newton Howard; Diretor: Christopher Nolan; ; 2005/2008/2012.

Baixada a poeira do alvoroço que foi o lançamento de Batman The Dark Knight Rises, está na hora de fazer uma leitura do que foi, na opinião da crítica cinematográfica mundial, o melhor Batman de todos os tempos.
Surgido nos quadrinhos (HQs) em 1939, criado por Bob Kane e Bill Finger, no início da segunda guerra mundial, remetendo a uma esperança que nascia da noite vivida pela   guerra, Batman conquistou público e virou seriado de curta-metragem para o cinema em 1943, em pleno recrudescimento do evento.
Ao longo de 70 anos de existência esse super-herói soturno povoa o imaginário social evoluindo de acordo com as novas tecnologias cinematográficas, novos modelos de estética e contexto político.
A trilogia de Nolan divide-se em temáticas cujo contexto real é o terrorismo,  vivido escancaradamente desde os atentados de onze de setembro de 2001. Batman Begins tem como temas o medo, a justiça e a vingança. A abordagem é a própria vida pessoal de Bruce Wayne ( Christian Bale), atormentado pela morte de seus pais na infância e à procura de uma forma de fazer justiça e lidar com o proprio medo. O contexto de Batman Begins é a corrupção interna da justiça e o submundo do tráfico de drogas.
Em Batman The Dark Knight a instituição Batman está pronta, acabada, tornou-se um símbolo e a discussão ideológica clara sobre justiça e terror se personifica  através de Coringa/Joker interpretado brilhantemente por Heath Ledger. A temática é o terrorismo, a mensagem é acreditar, acreditar sempre.
Em Batman The Dark Knight Rises a personagem principal sofre uma cisão e temos duas histórias andando de mãos dadas, a pessoal, de Bruce Wayne e a institucional, de Batman. O contexto é a guerra civil, a luta de classes, o discurso socialista, a luta armada e a reflexão sobre o poder nas mãos das minorias e a temática é a liberdade.

A jornada filmográfica do Batman de Nolan começa com uma queda. Bruce criança (Gus Lewis) caindo num poço escuro, numa alusão ao seu interior sombrio. Seus passos, ao longo da vida, são sempre em busca de algo que possa trazê-lo de volta ao mundo real, e sai mundo afora procurando desafios e respostas.....Enquanto isso do outro lado da cidade....A justiça é feita por corruptos burocratas e o promotor público da cidade, Dr. Jonathan Crane (Cillian Murphy) é o vilão, o maior traficante de drogas da cidade e orientado pelo líder da liga das sombras Ducart (Liam Neeson).
O herói, Batman, é humano, não tem super-poderes, não é sobrenatural. O grande mantenedor do herói é o capital e a tecnologia financiada pelo conglomerado Wayne através de um setor chamado ciências aplicadas, financiado pelo caixa-dois da empresa, pois não aparece nos livros-caixa oficiais, (Batman The Dark Knight). O super-herói ao invés de super-poderes tem super tecnologia, super financiamento. Em um dos diálogos o contador das empresas Wayne descobre um croqui do batmóvel e diz que sabe que o departamento de ciências aplicadas financia o super justiceiro e tenta chantagear Lucius Fox (Morgan Freeman) e ouve o seguinte: "...deixe ver se eu entendi bem, você descobriu que o homen mais rico e poderoso do mundo faz mingau de criminosos à noite e quer chantangeá-lo. É isso?" O poder político e econômico o tornam acima do bem e do mal.
O poder público é financiado pelo capital privado. A polícia recebe ajuda de empresários da cidade no caso do roubo de milhões de dólares evadidos para a China. As notas foram irradiadas e a promotoria questiona como a polícia teve dinheiro para usar um procedimento tão caro. Os fundos para defender Gothan City vem de festas beneficentes promovidas por Bruce Wayne, que diz para o comissário Gordon ( Gary Oldman) "... uma festa com meus amigos e não precisará de mais um centavo"
A institucionalização da espionagem desterritorializada é abordada quando a investigação do livro-caixa de uma empresa chinesa de seguros, supostamente pertencente à máfia, é viabilizada com falsas pretensões de negócios, usando-a (a espionagem) como instrumento oficial de combate ao crime.
Desrespeita a soberania do território nacional chinês invadindo-o e sequestrando um cidadão para ser julgado em território americano. Constrói sonares com os celulares de trinta milhões de habitantes de Gothan, transformando-os em microfones, numa completa e absoluta falta de ética.Constrói um olhar em alpha, que atravessa paredes, tornando o mundo devassável.
O nacionalismo também está presente, na forma de defesa da produção nacional e na forma de patriotismo. Quando tentam matar Harvey Dent ( Aaron Eckhart) com uma pistola fabricada na china e ela falha, ele sugere que use uma americana (Batman The Dark Knight) e no ataque terrorista a um estádio de futebol americano na hora  do hino nacional.( Batman The Dark Knight Rises)
Numa introdução sobre tipos diferentes de  idealistas, Alfred (Michael Caine) diz à Bruce (Christian Bale)   " Até os comuns são vendáveis, compráveis, menos os idealistas..."  e nesta lista, de idealistas de direita está Rachel Dowes (Kate Holmes e Maggie Gyllenhaal) - Batman Begins e Batman The Dark Knight respectivamente - que morre pelo seu ideal de justiça, e corroborando com esse raciocínio Harvey Dent ( Aaron Eckhart) diz: " ...ou você morre herói ou vive o bastante pra se tornar o vilão" realidade essa que seria a sua e que viria a ser o fio condutor do desfecho do terceiro episódio.
 Na caracterização do que seria um idealista do mal se encaixa Coringa/Joker (Heath Ledger) genuíno representante do terrorismo e é referido por Alfred (Michael Caine) da seguinte forma: "Alguns homens não procuram nada lógico, como o dinheiro. Não são compráveis ameaçáveis, razoáveis, negociáveis, alguns homens só querem ver o circo pegar fogo" . Batman Dark Knight foi o que mais apresentou discursos explicativos sobre os estereótipos. Coringa representa o estereótipo terrorista de uma época. Sentado em cima de uma pilha monumental de dólares, achincalha o capitalismo e sua civilização e traz falas absolutamente claras. Conversando com um mafioso: " Eu tenho gostos simples, curto dinamite, pólvora e gasolina" e queima uma tonelada de dólares..." sabe o que pólvora, dinamite e gasolina tem em comum?....São baratas (...) vocês só pensam em dinheiro, a cidade merece uma classe melhor de criminosos e eu vou dar a ela" à frente de uma fogueira de dólares diz ainda: "não é pelo dinheiro, é para passar uma mensagem" e na cena seguinte Bruce Wayne tenta  ajudar a evacuar a cidade, que está explodindo nos quatro cantos num Lamborguine.
Coringa, já no hospital, vestido de enfermeira - a assistente da cura - conversando com Harvey Dent continua: "(...) eu não planejo, eu apenas faço as coisas. A máfia, os tiras,Gordon fazem planos. Eu só mostro o quanto as pessoas que fazem planos e tentam controlar seu mundinho com esquemas são patéticas. Peguei seu mundinho e virei contra ele mesmo, veja o que eu fiz com a cidade com uns barris de gasolina e umas balas.(...) se você introduz um pouco de anarquia perturba a ordem vigente, tudo se torna um caos. Eu sou o agente do caos. Sabe qual é a chave para o caos? o medo"  e limpa as mãos com álcool gel.
Mas é em The Dark Knight Rises que o épico tem seu desfecho ideológico. Saído do submundo absoluto (abaixo da batcaverna), surge Bane o mercenário idealista e sem limites que sacudiria Gothan City. Usando uma mácara sob a boca, na representatividade dos que não tem voz, Bane arrebanha todas as minorias, os presidiários, os loucos, os trabalhadores braçais, os corruptos, os traficantes, os insatisfeitos com o sistema.
  Inicia atacando a bolsa de valores, o coração do capitalismo, deixa a bandeira dos E.U.A em frangalhos, faz um discurso socialista de tomada de poder pelo povo e para o povo, promove o caos pelas idéias e, é adepto da luta armada, destrói o discurso de hipocrisia em torno de Harvey Dent e postula a liberdade a qualquer preço.
Estereótipo de força física, superioridade e truculência leva Batman ao nocaute sem trilha sonora, promove uma batalha medieval corpo-a-corpo na Wall Street, centro financeiro do planeta, e põe Batmam para lutar contra a poderosa e inexorável bomba nuclear.
.....Enquanto isso do outro do lado do indivíduo....o de dentro, o Bruce Wayne caído no poço desde a infância tenta sair conotativa e denotativamente do poço para a liberdade sob o entoar de um canto gregroriano de ....Ressurja! Um imperativo que grita na alma de bruce e que é evocado e lembrado sempre pela sua consciência externa, Alfred, seu fiel escudeiro, mordomo, pai adotivo e, por fim, herdeiro de seu império.
A viagem introspectiva de Nolan a alma de Bruce Wayne é brilhante quando mostra no Batman Begins, Bruce fechando o poço com alguém dentro, que vê a ripas serem postas e Rachel Dowes (Kate Holmes) dizendo-lhe que a máscara não é Batman, Batman é o indivíduo, a máscara é Bruce.
A crise de identidade estabelecida em Batman The Dark Knight com espelhos que refletem o espectador, com quebras de vidraças e devassabilidade de dentro para fora e de fora para dentro, com máscaras reversas, tanto as de Batman quanto as de coringa. São os signos identificadores de uma alma em agonia, que por fim ressurge para a vida e assume sua existência "real", abandonada aos oito anos de idade, ao lado de Selina Kyle ( Anne Hattaway), numa declaração silenciosa de que a vida é devir, não tem regras e não se curva às nossas convenções.
Quanto à produção? Espetacular! A grandiosidade das imagens projetadas na versão IMAX (65mm) com uma inacreditável qualidade, numa tela que pode chegar ao tamanho de um prédio de dois andares nas melhores casas de exibição. A aposta de Nolan foi em detrimento da versão 3D e assim justificou sua escolha: "Eu prefiro a tela grande, olhar para uma tela enorme e com uma imagem que você sente que é maior que a vida" E isso amplificou a sensação de abarcação do mundo. a sinalização da visão panóptica de Batman em relação a Gotham City, que representa o mundo.. As cenas em sua maioria são amplas e abertas, apenas as que se referem a Bruce e alguns momentos de luta de Batman são fechadas e intimistas, pouquíssimas remetem as tomadas de quadrinhos (HQs) e estão mais presentes em Batman Begins e Batman The Dark Knight.
A trilha sonora é explendorosa e sacode a alma. A sensação provocada pela associação da imagem gigante e da qualidade e intensidade do som é de elevar a tatibilidade à enésima potencia.
A grandiosidade não pára por aí. Algumas das cenas mais perigosas e de ação não foram montagens gráficas, foram reais. Nolan, de fato, colocou alguém sob o pináculo de uma cidade vestido de Batman, o cone do avião da CIA em que que se dá a primeira briga de Bane, era um cigarro sem asas de um avião real içado por um helicóptero, e aqueles homens pendurados, eram reais. Absolutamente estonteante e corajoso.
O Batplane, era real. Foi contruída de fato uma traquitana gigantesca e inacreditável.
O que foi o Batman de Nolan?...Foi tudo.Mas muito especificamente, um homem. Alguém em quem o espectador,  teve com o quê se identificar. O que foi o Batman de Nolan?...Um mural de ideologia, um exemplo de que se pode misturar blockbuster com algum conteúdo.
A trilogia Nolan tem quase nove horas de película em que, realmente, se conta uma história e se dá um final grandioso para ela, e cuja mensagem  é a de que ninguém é insubstituível e que, romanticamente, termina dizendo que o herói pode ser qualquer um de nós, que no-fundo-no-fundo, para o  tipo de mundo que construímos e escolhemos viver já somos super-heróis.
O Batman de Nolan é ideológico, é político e de extrema direita. Mas mesmo assim, vai demorar para alguém superar essa obra cinematográfica. No Batman de Nolan qualquer semelhança não é mera coincidência.
Se Batman morreu?....Se os argumentos para inseri-lo num contexto findaram-se?...Se não há mais possibilidade de inventividade tecnológica em Batman?....Se Batman acabou?.....NOT YET!

Fique com o behind the scenes.....apoteótico:

sábado, 25 de agosto de 2012

SEPARAÇÃO

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Existe um casamento que é especial,  definitivo e é até que a morte os separe.
Quando somos concebidos começamos a namorar e construir um relacionamento fantástico com alguém que vai nos acompanhar a vida inteira. Tem a missão de ser o nosso melhor amigo, companheiro e estar conosco em todos os momentos, todos os momentos mesmo.
Levamos nove meses, ou menos, construindo esse sujeito, essa outra pessoa, essa  relação passo-a-passo. Quando nascemos ficamos noivos. Ele é rudimentar e tosco, se manifesta por gritos, choros, berros e alguns sorrisos e levamos a vida inteira educando-o. Ensinando-o a alimentar-se, a não se machucar, a sentir tudo, a agir e reagir.
Em algum momento dessa relação, confundimos os papéis e nos adonamos e achamos que somos um, casamos. Passamos a não ouvi-lo, ignorá-lo, vilipendiá-lo, sem saber. Em nome do prazer, da beleza, da aceitação....sempre do prazer.
Esse outro quando está cansado, resfria. Quando é mau amado, chora. Quando não é alimentado sente fome. Quando não é respeitado, adoece. Este outro é transformado em vitrine, vira cabide da moda.
Como ninguém é bobo, esse outro aprende a se defender de nós mesmos (eu/você).....esse outro é o nosso corpo. Quando paramos de comer ele economiza gordura, nos sabota, preserva sua fonte de energia, sua sobrevivência e consome músculos, sua  sustentação, que gera muita energia e gasta também, ele é inteligentíssimo. Quando você fuma, bebe ou se droga ele luta o tempo todo, incansavelmente, para manter limpos os alvéolos, o fígado e a corrente sanguínea. Um esforço hercúleo durante anos, um esforço cansativo....até não conseguir mais.
O não conseguir mais do nosso "cônjuge" é a desistência. A desistência de lutar contra quem deveria amá-lo. De todas as desistências, de todas as separações e divórcios do nosso corpo pra conosco a anorexia é mais gritante, a mais escandalosa, a mais desesperada, a mais suplicante.
Desisto de você......não aceito mais comida.
Desisto de você...... desliguei o aparelho reprodutor, não quero outro desse alguém por aí.
Desisto de você......não consigo sofrer mais
Desisto de você.....o carinho mais emergente você me negou.
Desisto de você..... você não me merece.
Desisto de você.....você não soube me usar.
Não confio mais em você.....
Tenho medo de você........
....quero ir embora!
De todos os divórcios esse é o único que em cem porcento dos casos termina em morte.
QUEIRA AJUDA! ACEITE AJUDA! PEÇA AJUDA!
Com carinho para as ANAMIAs de minha vida e do mundo.


domingo, 29 de julho de 2012

ESCREVER

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Esta  semana (25/07) comemorou-se o dia do escritor. Define-se escritor como sendo alguém que escreve profissionalmente, porém, nada é estático, com as multiplicações de veículos de escrita, colunas de jornais digitais, blogs, notas do facebook, etc... Contextualmente, escritor é quem escreve e se expõe através do veículo escolhido. Temos os que escrevem por prazer, por terapia, por profissão, por brincadeira e tal. Já que é a pauta da semana, vamos e ela, pensemos a cerca.  A escrita me dá medo pelo seu poder de fixar o que se pensa, pela dificuldade de retirar o que se diz, pela apropriação dos outros de uma coisa que, até então, era pessoal, pelas múltiplas interpretações, pelas múltiplas consequências, pelas múltiplas visões. A escrita foi uma forma inventada de não esquecer, de selecionar quem lê, de elitizar o pensamento, de blindar o conhecimento.
A escrita é um processo de expurgação de nossos demônios, nossos fantasmas, de nós mesmos. Vamos deixando um pedacinho aqui, um outro ali, nos revelando um pouco cá e um pouco acolá.
Ferramenta perigosa, arma respeitável, baú de realidades mil, depósito de idéias, de revoluções, de nascimentos e renascimentos em nós mesmos.
Escrever é deixar um pouco da alma e do sangue através das idéias, é deixar cair bem devagar os sete véus, é uma sedução em slow motion.  É pique-esconde, é poder exercido com charme, com classe. É parir um filho, é esculpir um vaso. Escrever é trabalhar como oleiro moldando uma forma, a mais bela e intrincada forma de se esconder. É um convite a descoberta, a descoberta do texto, do contexto, do autor.
Escrever é um jogo de se revelar não se revelando, é viver sem viver, de falar sem abrir a boca, é provocar e esperar. É jogar xadrez sozinho. Escrever é se esconder se mostrando, é gritar em silêncio, é jogar pedra atrás de um vidro blindado. Escrever é emaranhar-se numa floresta de letras e esperar que algum dia elas digam quem somos. É procurar um leitor a altura aumentando sempre o nível de dificuldade. É procurar sem querer encontrar.
Escrever é usar um código em benefício próprio e ser ovacionado como talentoso. Escrever é fazer no imaginário o que não se consegue fazer na prática. Quem escreve é um sofredor, um observador com  ares de experiente. A escrita é um exercício nobre de covardia.


quinta-feira, 26 de julho de 2012

AVÔ

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Avô é aquele parente condescendente que não tem cara de parente, tem cara de alegria.
Avô é aquela entidade que a gente visita pra ser recebido de outra forma.
O avô já viu de tudo, sabe tudo, inclusive que a partir do sorriso e do carinho podemos construir um mundo.
Avô é aquele que sabe que pressa não adianta e faz tudo muito lentamente.
Avô é aquele que, por  conhecer o mundo, sabe ciceronear.
Avô é aquele cara que parou de brigar por tudo e assiste dando nota em silêncio.
Avô é aquele que lida bem com o fardo, pois já o teve como objeto, como obrigação e agora é apenas exercício de vida....gratidão.
Avô é aquele que quietinho ou não, tem uma compreensão acima da média e que nos olha como  lembrança e esperança.
Avô é aquele que acende assim que chegamos e que nos dá poder de torná-lo mais forte e especial, alguém que já aprendeu a ouvir o próprio silêncio e que adora o nosso barulho; alguém de madeira por fora e marshmallow por dentro.
Ser avô não é desempenhar um papel social, é ficar encantado, é ter ares de papai noel,  poder de duende, saber de um mago e alegria de palhaço. É alguém enfeitiçado pela vida.
Bem aventurados os que são avós de verdade, que encarnam esse papel irresponsável e mágico para alegria de quem começa uma jornada e prêmio de quem a está concluindo.
Exercer a magicidade de ser avô, ter essa grandeza de percepção é pra poucos, mas ainda bem que existem.

domingo, 8 de julho de 2012

LIBERDADE

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A palavra liberdade remete ao horizonte, a não ter fronteiras, ao exercício do poder de decisão, a não precisar obedecer, não precisar dar satisfações, a pleno movimento sem restrições.
Sempre que pensamos em liberdade, a primeira premissa é: " fazer o que se quer" A palavra liberdade vem vestida de fantasias e ilusões.
Liberdade é um patrimônio, há que ser construído. Ter liberdade exige pré-requisitos,  não é para qualquer um, hão de ser conquistados.  Usar a liberdade exige condições, não é sem critério, há que se desenvolver capacidade para reconhê-las.
Liberdade não surge do nada, não é o horizonte à disposição. É caminho de possibilidades, é PODER. Ter liberdade é poder exercer a vontade, ter consciência dos preços e ter condições de pagá-los, ter estrutura para aguentar as consequências do que se decide.
 Ser livre é ter construído um arcabouço de maturidade e responsabilidade para usar um PODER. Ter liberdade é ter uma bagagem de possibilidades reais e a perspicácia para saber qual possibilidade usar e em qual momento fazê-lo.
Os pré-requisitos básicos para possuir esse patrimônio valiosíssimo não são simples: ponderação, paciência, perspicácia, estrategismo. Ter conhecimento de causa, da vida, para saber pensar, refletir, esperar e analisar circunstâncias e situações díspares, contextualizar e pesar prós e contras.
O exercício de liberdade exige que saibamos o que queremos, para onde vamos e quais os preços que pagaremos pela decisão que tomaremos e que saibamos ter condições para arcar com as consequências de nossas escolhas, porque elas vêm. A capacidade de avaliação interna e externa são de suma importância. A  condição de pagar preços pelas escolhas faz dos usuários da liberdade alguém competente ou incompetente para seu uso.
Liberdade não é falta de limites, mas o uso inteligente, prazeiroso e construtivo desses limites. Liberdade não é viver sem rédeas, mas saber controlá-las, controlar-se. Liberdade não é lutar contra o mundo, mas usá-lo a seu favor. Liberdade é o maior patrimônio que um espirito encarnado pode ter, é o exercício da sua sapiência, da sua evolução em prol do seu crescimento.
"Fazer o que quer" como definição de liberdade é para tolos.



domingo, 24 de junho de 2012

HOUSISMO - parte II - O AMOR E O MEDO

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House M.D. Drama/ mistério Elenco: Hugh Laurie, Omar Epps, Robert Sean Leonard; Produtores: Paul Attanasio, Katia Jacobs; Roteiristas: David Shore, Brian Singer; Criador: David Shore; 2004-2012.
Agora é definitivo. Acabou o affair que tínhamos com o detetive da medicina Dr. Gregory House (Hugh Laurie). A viagem ao interior da personagem e as exposições de suas fraquezas, medos e fragilidades, iniciou-se no  1º episódio da  6ª temporada / Broken, em que House encontra-se num hospício - Mayfield Psychiatric Hospital. Vimos um House pedindo ajuda e com medos confessos, sem segurança, mas tentando acreditar em alguma coisa, tentando se salvar. Quando se envolve com Lydia ( Franka Potente) a cunhada de uma das pacientes, e  o que os aproxima é a música.
House via a mulher, em geral, como objeto, numa relação de prestação de serviços. Em Mayfield a contratação de serviçais era proibida, é claro, e a liberação de um paciente para sair era impossível, até segunda ordem. O que o forçava a ver as pessoas como pessoas, inclusive se tivesse que se reportar a esse aspecto, relação íntima.
No hospital psiquiátrico a carência e a fragilidade humanas estavam tão expostas, tão afloradas que eram o cartão de visitas de cada um. Num trabalho psicanalítico de exercício de confiança, House se aproxima de Lydia e a cena de entendimento entre os dois é, na minha opinião, a mais bela  de toda a  série. Um pedido de desculpas numa valsa silenciosa em que ambos dançam ao som do nada, apenas perdoando-se e confessando-se como humanos  que se rendem à essa condição. O que se segue é o exercício do despir-se de si e  de ser o que se é. O atestado da intensidade do fato, em House, são seus olhos marejados acima dos ombros de Lydia, como faróis acesos sob a escuridão e que encontraram o que procuravam sem nunca ter  tido a certeza de que existia, revelavam sua alma, retiravam a armadura e o escudo e erguiam a bandeira branca de rendição.
A impossibilidade do romance - mulher casada x paciente de um hospício - o faz cair na realidade fria e cruel que ele sempre conheceu. A cena da porta na cara de House, na varanda da tal senhora, com a  câmera aberta e house de cabeça baixa é proporcional à dos olhos marejados. A partir daí, revestir-se do seu antigo eu, o papel já conhecido de si, é mais que natural.
O renascer mais terno, possibilita mais adiante um romance, mais que esperado, com Drª Cuddy ( Lisa Eldeinstein) -  1º episódio da  7ª temporada/ Now What? . Após perder uma paciente nos escombros de um desabamento e estar completamente revoltado e impotente diante da morte, é aninhado nos braços da colega de  trabalho. Outra cena brilhante se agiganta diante do espectador: Lisa ao cuidar das feridas corpóreas de House,  beija-lhe a perna "aleijada" com uma cicatriz horrenda, numa alusão à cuidado e aceitação. House resiste ao ímpeto da fuga e se emociona, permite-se, consente ser amado, tocado, cuidado, estar sob a guarda de, confiar, colocar-se nas mãos de alguém.
O amor para House era enfraquecedor de poderes, atrapalhava a atenção, interceptava comunicações racionais, era uma espécie de criptonita. O amor o distraía, o deixava menos competente, mais normal, mais igual a todo  mundo, mais comum, alcançável, nivelável. E essa perda de seu "eu-arcabouço", essa imposição de fragilidade e a falta de capacidade de administrar outra pessoa em sua vida, colocou um ponto final na história.
O seguir em frente era imperativo para ele, mas quando passou a ser realidade na vida da Cuddy, quando percebeu não conseguir fazê-lo em sua vida emocional, a grande manifestação de descontentamento foi o ato mais abrupto - 23º episódio  da 7ª temporada/ Moving On - a invasão da casa da mulher amada com um carro, no mais perfeito estilo Mad Max, a música do episódio, composta por Jason Derlakta e Jon Ehrlich, dizia: " não tenho nada a perder exceto escuridão e sombras, amargura e padrões".
House não conseguia mudar com platéia, House não queria mudar, ele queria que o mundo se curvasse ao que ele era, e a condição para o pleno exercício, do que se institucionalizou chamar de amor, no caso de House, era a mudança.
Segundo David Shore: " House sabe o que é o amor, é um homem que tem emoções, tem sentimentos, se preocupa, mas tem como características a distância, a indiferença, a remoção de qualquer tipo de ligação e não é bom com mudanças". Usa a união que legitima o amor para ganhar trinta mil dólares em troca do green-card da pseudo-esposa Dominika ( Karolina Wydra) - 17º episódio da 7ª temporada/ Fall from Grace . O amor, segundo a máxima popular, é vida, vida para House é dor.
Vida para House é hipocrisia, um desfile de falsidades e mentiras. House não salvava vidas, ele resolvia mistérios, derrotava doenças, participava de um duelo. O que o paciente iria fazer com o que lhe restasse de hipocrisia e dor , pouco ou nada lhe interessava.
O único espaço de amor no qual  House se sentia à vontade era o da amizade. O amor escolhido com consciência, que tem respeito nas veias, que necessita do cultivo e que a possibilidade de perda é clara, matemática, lógica. O amor que é questionado sempre e revitalizado pela consideração e pelo reconhecimento da necessidade. E mesmo sendo tudo isso, House chegava aos limites dessa relação, sendo uma fonte de usurpação, que era a distância imposta e o limite testado por puro medo.
A partir da possibilidade real de perder o Wilson, único amigo, para o câncer - 19º episódio da 8ª temporada/ The C World - algo que não dependia dele, desesperou-se. Sabia que, enfim, iria ficar só de qualquer jeito e teria que lidar com isso. Esse era seu limite.
David Shore o colocou no último capítulo  - 22º episódio da 8ª temporada /Everybody Dies - conversando com os quatro "fantasmas de sua vida passada" todos querendo salvá-lo da morte eminente em um prédio em chamas, menos um, o último. Que dizia ser a morte a recompensa para tanto sofrimento e aconselhava " acabar com a dor é melhor do que a dor" e House lembrou-se de seu último paciente, um viciado em heroína, para o qual disse:  " você é uma pessoa melhor morrendo do que vivendo.... o mundo é um lugar melhor porque eu não salvei você". E a partir desses diálogos e lembranças, House morre e nasce Gregory. House deixa de ser o vivo-Morto, forja a própria morte e se transforma num morto-Vivo.
House está morto. Alguém que vivia para os usos de suas habilidades de inteligência, para o exercício de suas potencialidades intelectuais, salvava vidas porque era uma consequência da solução de enigmas.
Na verdade, a doença para House era a vida com sua dicotomia de racional/emocional. " A vida é dor"  fala repetida em vários episódios, numa alusão direta àquilo que se apresentava para ele todos os dias através de sua perna.
Em 177 episódios poucos foram os pacientes com quem House se identificou e se envolveu, dentre eles: Um paciente que se comunicava através da música - 15º episódio da 3ª temporada/Half-wit. Uma paciente que sofrera todas as atrocidades possíveis na juventude e que transformava sua dor em arte  - 23º episódio da 7ª temporada/Moving On. E o viciado em heroína que não tinha nada a perder e com quem ele trocou de corpo - 22º episódio da 8ª temporada/Everybody Dies. Todos esses foram pedaços centrais do House.
House optou por uma nova vida no último capítulo da série, abdicando dos enigmas da profissão, do julgo do convívio social, para ser um morto-Vivo. O primeiro exercício de amor de House seria amizade por Wilson, acompanhando-o nos seus últimos cinco meses de vida, apresentando, conotativamente, como carteira de identidade um atestado de óbito.
House deixou de ser House para ser Gregory em cima de uma motocicleta, símbolo de liberdade e rebeldia, sob o som da música composta para o episódio, que dizia: " divirta-se como você pode, pois os anos passam rápido como um piscar de olhos"  ao lado do seu melhor amigo. E as ilações sobre a vida/morte de House ficam por conta do espectador e de suas considerações finais acerca da personagem, de acordo com seu repertório de significações de vida. Depois de salvar tantas vidas House tenta salvar a sua própria, sendo apenas Gregory.
Com oito anos de uma história fictícia e a criação de uma personagem tão instigante, uma salva de palmas para esse gênio chamado DAVID SHORE.