"Você é o que você come" já dizia Feuerbach . Nosso assunto essa semana é saúde, bem-estar, fisiologia, o papel da escola na educação alimentar e o ativismo político da boa alimentação.
Descobrimos que não sabemos nada de nutrição quando resolvemos emagrecer com responsabilidade ou virar atleta amador. Não sabemos sobre as propriedades dos alimentos, quais os benefícios de cada um para o nosso organismo, quais os que conjugados com outros conduzem melhor as propriedades e ajudam na absorção pelo nosso corpo e os que brigam uns com os outros a atrapalham a absorção de suas propriedades no processo de digestão. Descobrimos o quanto é difícil encontrar alimentos saudáveis pelos lugares por onde passamos, administrar os horários entre-refeições, descobrimos que essas são as grandes questões de uma vida saudável e o quanto isso interfere no trabalho e na vida social, mas que não é desculpa para não tentar e é possível conseguir. Descobrimos, também, que esconderam de nós a força, a longevidade e a saúde.
Digo esconderam porque temos um fórum adequado, a escola, e não temos uma "disciplina" sobre educação alimentar e fazemos isso, alimentarmo-nos, todos os dias , várias vezes ao dia durante toda a vida. E este é um ponto intrigante, uma instituição de fomento e sistematização do conhecimento sequer tocar no assunto. Já existem projetos de lei e organização de políticas públicas concernentes a nutrição das crianças, mas o grande vilão ainda é a cantina da escola. (confira!).
Pesquisas hoje mostram que morre-se muito mais de obesidade do que de fome (aqui) , ou seja, estamos consumindo inadequadamente por falta de informação, não sabemos como funcionamos e temos um dia-a-dia que não nos possibilita cuidarmos de nós mesmos de maneira satisfatória. Somos pertencentes à geração da pressa, trabalhar, estudar, cuidar/gerir/administrar uma casa, filhos e tal. Se cuidar fica para último plano. A ajuda que temos para a otimização de tempo é o alimento processado/industrializado, um amontoado químico de conservantes, acidulantes, corantes, sódio e gorduras trans,(saiba mais) , um coquetel de calorias vazias. Os braços da indústria alimentícia vão a qualquer lugar e sua necessidade é criada pela propaganda. O horário de almoço, hoje, é cada vez menor, come-se às pressas, os intervalos são cada vez maiores de uma refeição a outra . O que esqueceram é de abolir as leis da fisiologia, passar de três horas sem alimento diminui a velocidade do metabolismo, gera acúmulo de gordura e consumo de massa muscular.
Se quisermos ter uma vida saudável, livre de doenças, temos que saber sobre nutrição e fisiologia da nutrição, se quisermos ter uma vida longeva e uma velhice com qualidade, também. (veja) Poucas coisas são tão sofríveis quanto mudar hábitos a atitudes alimentares, readaptar o corpo à sua própria fisiologia, alimentar-se a cada três horas, como fazíamos quando criança, isso não é privilégio de crianças, gestantes e atletas, é para todo mundo. Ficaremos trinta a trinta e cinco anos de vida economicamente ativa, comendo mal, nas horas mais díspares e surrando o corpo, esse cara heroico que nos carrega uma vida inteirinha. Nesse ritmo fabricamos idosos doentes, diminuímos e expectativa de vida, comprometemos a qualidade de vida.
Uma velhice sem saúde pode ser evitado. Leve consigo uma fruta, uma barra de proteína ou de cereais, água, nozes, castanhas, frutas secas etc...e não deixe passar mais de três horas entre uma refeição e outra, é uma atitude simples que faz uma tremenda diferença a longo prazo. Seu corpo agradece. É a ele que você deve lealdade e atenção, é ele que vai te fazer companhia a vida inteira, cuide de seu melhor amigo e esse pequeno zelo será justificado quando você aos 60, 70, 80 anos ou mais ainda for o cara, aquele que tem saúde, disposição e está sempre pronto para ser feliz.
Faça da sua educação alimentar um ato político, desopile a saúde pública, declare falência da saúde privada e onere a previdência social, viva MUITO e MELHOR.
Assista o vídeo abaixo e veja o que a falta de informação e as calorias vazias estão fazendo com nossas crianças, a triste radiografia do nosso futuro.
Falar do amor na terceira pessoa é complicado, então.....
Não sei amar, definitivamente não sei, descobri quando me deparei com o conceito sublime do amor universal. Aquele que nos une como a um só, pequenas gotas de um imenso oceano, uma coisa só, junta e separada.
Tô aquém! Não alcanço! Não entendo! Não acesso! sou pequena demais para senti-lo, frágil demais para recebê-lo e fico olhando para esse eterno tudo, etéreo visível, contemplável, desejável e inalcançável feito criança em loja de doces.
Não sei, não sei amar, não sei de verdade. Empatia é pouco, noção de justiça é pouco, complacência é pouco, compaixão é pouco, fraternidade é pouco. Todas as buscas que fazemos, todos os elos que construímos: amor de mãe, amor de pai, amor de filho, amor de irmão, amor amigo, amor de mulher, amor de homem, os vários amores que nos fazem estagiários/aprendizes para um amor maior, talvez não chegue nem perto.
Não sei juntar nem os do estágio, sou aprendiz em dificuldade, precisando de aulas de reforço e indo para recuperação, com notas baixas em todas as matérias e pagando dependência. Sou analfabeta em sublimidades, sou acéfala em nobilidades da alma, mas uma estudante dedicada e que reconhece sua deficiência, e esta matéria muito me interessa. Talvez, ela seja o motivo pelo qual estamos aqui....mas até o conceito não me entra na cabeça, minha noção de existência minguou.....
Não sei amar, mas gostaria de aprender. Porque sinto que os que chegam perto são mais serenos, mais sábios, mais compreensivos com as coisas/lições da vida, são mais cândidos, têm um olhar prazeroso, no qual podemos nos deleitar...cobiço sim, cobiço o olhar de sabedoria, cobiço a temperança dos que chegam perto, me curvo à sua paciência, calma e ternura e acho que essas qualidades estão todas no caminho do saber amar. Não sei amar...mas vou aprender!
......Talvez essa seja a fala silenciosa de muitos de nós.
Existem medos e medos, há aqueles que são nossos sensores de alerta - os medos do bem- que nos tornam mais ágeis diante do perigo, que nos põem limites para que nos protejamos; mas há os outros - os medos do mal- aqueles que nos são inculcados, que nos imputam um certificado de incompetência e inapetência para o crescimento, a ousadia, o sair do lugar comum, da zona de conforto.
Há os medos - freios ABS - que nos travam de uma hora para outra e nos engessam para a evolução e a transcendência. Os medos ruins são construídos propositadamente para que não conheçamos nossa força para que nos subestimemos e sejamos eternos estranhos para nós mesmos.
Estes tais são, muitas vezes, instrumento de controle alheio sobre nós e que adotamos como sendo inerente a nós, nascidos conosco, fazendo parte de nosso ser. Alusivamente, são travas de vida, de tudo o que nos poderia enlevar, nos transportar para outro patamar. Confundi-mo-os, às vezes, com proteção, cuidado, consideração do outro para conosco, gratidão e até amor. Damos nomes falsos aos medos que nos acovardam diante dos desafios da vida e nos cristalizam para a volatilidade. O medo mata o que acreditamos sobre nós, nos apequena diante do mundo e, muito principalmente, diante de nós mesmos.
Mas com tudo isso, não significa que sejamos o que fabricaram que somos ou o que deixamos que fabricassem, a nossa essência estará lá, sempre, é só fazer silêncio, prestar atenção e ir se descobrindo, usando cada nuance da força e da coragem que temos, porque temos.
Tenhamos coragem, demos o primeiro passo, acreditemos em nós mesmos, a gente fica onde a gente acredita que é o nosso lugar, a gente é o que a gente acredita que é, olhemos para o que somos e soltemos as amarras. Acreditar é uma arma bastante potente para o avançar e para o empacar.
Desejos movem montanhas, fazem o impossível e o inimaginável acontecer. Desejos são "quereres" de alma que não passam pelo raciocínio, pelo refinamento, pelo processamento de possibilidades e viabilizações.
Desejos são o brilho do querer não lapidado, bruto, sem pensar em ônus, bõnus, causas e consequências.
Desejos são os primeiros lampejos da vontade, aquilo que brilha diante de nós com uma luz e força incalculáveis. Desejo não tem cerca, nada se faz sem o desejo, nada se constrói sem o desejo. O desejo é a primeira mola propulsora de tudo. As construções, em todas as áreas de nossas vidas, se dão, possivelmente, assim, desejamos, passamos a querer - o exercício do desejo com a razão - agimos e realizamos.... é a partir do desejo traçamos o caminho.
Esta semana fez cento e cinquenta e sete anos de nascimento de um dos maiores, senão o maior inventor que o mundo já conheceu, Nikola Tesla (10/07/1856). Dono de uma genialidade inconteste e de uma personalidade controversa, foi ridicularizado, posto no ostracismo, perseguido e vigiado até a morte aos oitenta e seis anos.
Sr. Tesla foi um sérvio que viu duas guerras mundiais, ambas com uso de tecnologias desenvolvida pelas suas descobertas. Foi responsável pela segunda revolução industrial com as bases da distribuição de energia, transmissão sem fios, contribuiu para o estabelecimento da robótica, controle remoto, radar, ciência computacional, física nuclear e outras tantas.
Dono de uma personalidade excêntrica, que muito contribuiu para as perseguições que sofreu e que pôs lenha na fogueira da campanha de descredibilização de sua pessoa, tinha TOC ( Transtorno Obsessivo Compulsivo) com o número três, não dava o menor valor a dinheiro, tinha aversão gritante a pérolas, era misofóbico, celibatário, obcecado por limpeza, amante de pombos, misantropo ao extremo, não gostava de tirar fotografias e dizia que se comunicava com extra-terrestres...precisa mais?! Não tinha a menor noção de política e costuras ideológicas e negociação de interesses, não conseguia estudar conjunturas, agir nelas então, nem pensar. Não conseguimos aceitar o que não entendemos e por conta de ter ideias muito além de seu tempo e ser um futurista contundente foi exposto publicamente à zombaria. A caricatura de cientista maluco das revistas em quadrinhos da década de quarenta como o Dr. Silvana do Capitão Marvel foi inspirada nele, numa campanha vil de degradação de imagem. As pessoas tinham medo de Tesla, seus vizinhos principalmente.
De acordo com a lei internacional de patentes - disponível nos ane
xos no final do texto - depois de vinte anos de registro um invento cai no domínio público, estando o inventor vivo ou não, se vivo recebe os dividendos, se morto e tiver parentes quem recebe são os parentes. Nikola tinha nínguém e nunca brigou pelo uso de suas patentes, disse certa feita: "Marconi é um bom camarada. Deixe ele continuar seus trabalhos. Ele está usando dezessete de minhas patentes" Usar as patentes de Tesla não era problema quando ele estava vivo, não o seria depois de morto, sem ninguém para reclamar absolutamente nada. Mas incomoda usar as idéias do cientista maluco. E quando perguntarem de quem é essa ideia?! Aha! é daquele extra-terrestre, insane... apontando , sem precisar gritar, que os grandes homens da época, aqueles que o rechaçaram, estavam equivocados, tirando a magnitude de inteligência de um momento da história e desclassificando o poder instituído daquele período. Que o mundo é torto, sabe-se, mas um país escrever isso em letras garrafais e assinar embaixo, NÃO! Então, após quase um século de nascimento de Tesla em 1952, com todos os seus detratores mortos, sem precisar passar pela vergonha de se reconhecerem impecilhos para a evolução da humanidade, inicia-se a campanha de desagravo.
Um busto foi construído por um escultor que ele admirava, hoje, localizado em Belgrado.
Uma outra estátua de corpo inteiro, posta em Zagreb na Rua Nikola Tesla, nome dado a sete anos atrás; Em 1960 foi dado o seu nome à unidade de medida do campo magnético numa conferência em Paris.
Em 1976 foi colocada uma estátua de bronze de corpo inteiro nas cataratas do Niágara, no lado nova iorquino; dá nome ao prêmio de maior prestígio na área de energia elétrica, também nomeia uma cratera na lua e um planeta menor.
Figurou em notas de dinar iuguslavo e sérvio, virou tema de música e nomeia o aeroporto de Belgrado e a mais recente das lembranças consta no filme O Grande Truque de Christopher Nolan (aqui) . Hoje Tesla é um deus, um homem iluminado, brilhante....um deus que comeu o pão que o diabo amassou para deixar um legado, para exercitar sua inteligência, para ser o que veio ser
O leitor deve estar se perguntando por que pensar sobre isso. O que isso tem a ver comigo?! Talvez, tudo. O que acontece numa conjuntura ampla (macrocosmo) acontece também, salvaguardadas as devidas proporções, no nosso entorno (microcosmo), trabalho, escola, vizinhança, condomínio, família etc... quantas vezes procuramos ou esperamos reconhecimento, sendo tolos sem saber. A vida é um jogo num tabuleiro de xadrez que nos permite liberdade de movimentação de acordo com a peça que sejamos. Quase garanto que não somos o rei, a rainha, a torre ou o bispo; quando muito, o cavalo, com uma movimentação mais livre e jogadas mais complexas, porém, no mais das vezes, somos mesmo é peão, os que existem em maior quantidade, o menor de todos em tamanho, que devora uns aos outros, com movimentação restrita e que não dá xeque-mate em ninguém. Talvez tenha faltado ao Nikola perceber que o mundo tem dono. Quer entender melhor? assista ao documentário, dublado em português pra facilitar a vida.
Saiu no jornal que uma flor desabrochou no pátio de um centro empresarial.
Saiu no jornal que uma senhora foi acolhida por seus filhos.
Saiu no jornal que uma família toma café da manhã junta e sorriem uns para os outros.
Saiu no jornal que um cego foi ajudado a atravessar uma rua movimentada.
Saiu no jornal que dois amigos se abraçaram calorosamente ao se encontrarem numa praça.
Saiu no jornal que crianças brincavam num parquinho e eram gentis umas com as outras.
Saiu no jornal que um professor foi ovacionado por uma aula brilhante.
Saiu no jornal que jovens de um certo bairro desenvolvem ações sociais.
Saiu no jornal que alguém foi gentil com um mendigo.
Saiu no jornal que uma mãe ajudou o filho com o dever de casa.
Saiu no jornal que alguém disse Muito Obrigado a outro alguém
Saiu no jornal que alguém jogou lixo na lata de lixo.
Saiu no jornal que pediram licença a um transeunte na rua.
Saiu no jornal que as chuvas são bem vindas.
Saiu no jornal que os governos prestaram contas dos impostos arrecadados.
Saiu no jornal que a indústria armamentista pediu concordata.
Saiu no jornal que temos tempo para nos cuidar sem a correria capitalista.
Saiu no jornal que a produtividade do mundo é dividida igualitariamente.
Saiu no jornal que a pobreza e a miséria não existem.
Saiu no jornal que a solidariedade é energia reinante.
Saiu no jornal que harmonia é palavra de ordem.
Saiu no jornal....
Algumas dessas manchetes hipotéticas são sonhos esperançosos, outras o escândalo de coisas cotidianas, das quais esquecemos e estamos permitindo que se apague da memória e da vida das novas gerações, que são tão comuns e extremamente significativas e que ao se tornarem possibilidade de notícia nos diz o quanto são raras ou não mais acontecem. Pra pensar!
O Palhaço. (drama, comédia e aventura) Elenco: Selton Mello, Paulo José, Larissa Manoela; Diretor: Selton Mello; Brasil, 2011.
Benjamim Savala Gomes (Seltom Mello) é o nome da personagem que tem crise de identidade profissional, crise existencial, depressão, não sorri e veste o palhaço chamado Pangaré para fazer os outros rirem. Um palhaço sem carteira de identidade, só tem certidão de nascimento, nasceu...e só.
O filme o palhaço, segundo o próprio criador (Selton Mello), nasceu de uma crise profissional, de um momento de questionamento. A obra fala do cotidiano de todos nós numa narrativa sofisticada e poética. Produzido em 2010 traz à baila a candura, o sonho, a dúvida e o desejo. É uma comédia sonhadora.
Taxado de brega por falar de povo e usar canções antigas, de serestas, vulgarmente conhecidas por embalar dor de cotovelos como "Eu amo a sua mãe" de Lindomar Castilho e "Tudo passará" de Nelson Ned, dentre outras escolhidas e criadas por Plínio Profeta, O Palhaço tem o diferencial de falar do homem comum, de objetos comuns, de ser misturado com a poeira da estrada, com o canavial, com o bar da esquina, com a praça central da cidadezinha, com a mesmice, com a rotina e com a lentidão da vida.
Para criar a história um trabalho de pesquisa sério foi desenvolvido por Alessandra Brantes (pesquisadora circense) que lida cotidianamente com produção de circo e políticas que favoreçam artistas circenses; também foram empreendidas viagens por Alagoas e Brasília e realizado um mapeamento dos grandes artistas de circo do país. Tudo o que se ouvia, tudo o que se falava nessas viagens foram combustível para contar essa história, que teve o alinhavo final feito por Marcelo Vindicatto (roteirista). O objetivo foi criar uma obra em que os artistas de circo se sentissem representados. As locações foram montadas em Paulínea (SP) e Ibitipoca (MG), a história ambientada na década de setenta.
O cotidiano é retratado de forma brilhante na diversidade de pessoas e tipos, no homem ordinário, no povo, na estrada de barro vermelho, nos improvisos, na criatividade, nos objetos (tiara, trombone, ventilador, etc...) e na devoção a São Filomeno - protetor dos músicos, comediantes e palhaços - e que se estende até a equipe de produção que, literalmente, passou a acender uma vela para o santo todos os dias em agradecimento ao tempo bom que encontravam nas locações a céu aberto. Mas a ode ao cotidiano é dada na cena do delegado Justo (Moacyr Franco), a representação de poder da cidade com o dia a dia igual ao do homem comum e sujeito a todos os mal-entendidos próprios do mesmo.(confira)
Selton Mello, em relação à técnica diz que preferiu a câmera parada e as cenas centralizadas fazendo o espectador assistir ao filme como se estivesse na plateia de um circo, em que, de qualquer lugar que se esteja a visualização é central. A fotografia de Adrian Teijido imprime o sonho e tem uma riqueza visual de encher os olhos. A trilha sonora teve como desafio ser original, num meio em que as músicas são clichês, Plínio Profeta inovou e fez uma trilha singela. O filme teve, ainda, a assessoria do palhaço real Kuxixo.
Benjamim é um sujeito triste, com responsabilidades e solicitações que ele não dá conta, um palhaço que não ri na foto, tem uma introspecção excessiva e não tem rumo, seu desejo é ter um ventilador,que não se apresenta só como uma necessidade para aplacar o calor mas também representa um luxo, sinal de importância no circo, além de simbolizar novos ventos, novos ares, vida nova. A personagem do palhaço Pangaré, que se sobrepõe à personagem Benjamim é a personificação de seu estado d'alma. Na fala de Paulo José: "o palhaço não tem família, palhaço é sozinho, palhaço não é casado, é solitário, abandonado, triste, patético, o palhaço faz chorar rindo". Essa tristeza e insatisfação reinante na vida de Benjamim é o que o impulsiona a buscar novos horizontes, buscar a si mesmo. Vai rumo à cidade de Passos ( cidade natal de Selton Mello) à procura de Ana na loja Aldo auto-peças e no caminho começa a escrever a sua história, a construir sua identidade.
Na necessidade de um emprego estável, tira a bendita carteira de identidade, que lhe fez falta na identificação a um policial e na tentativa de compra de um ventilador. Consegue o emprego de atendente numa loja, cabelos penteados, empastados, sem frizz, enquadrado em uma janela de atendimento com cara de segunda-feira todos os dias e ligado no automático, se ajustando, entrando no esquema, engomadinho atrás de um balcão, vendendo o que não podia comprar, enquanto isso, o ventilador de teto do seu departamento continua parado.
Quando assiste a seu chefe contar piadas e fazer as pessoas rir, ele ri pela primeira vez e percebe o quanto é importante, prazeiroso e difícil e, por conseguinte, valoroso esse exercício. Despenteia seu cabelo na frente do espelho, olha para a carteira de identidade, compra um ventilador e volta para o circo...no caminho faz graça por/com prazer.
Benjamim descobre a liberdade do palhaço, nas palavras de Selton Mello: "o palhaço pode entrar e sair da poesia, passar de momentos de pura ilusão para realidade mais concreta, se mostrar feio e belo, revelando esse caráter própriodo ser humano que é ser plural" .
Assim Benjamim faz o rito de passagem de ter dúvidas sobre a profissão e descobrir que é um bom palhaço, e ser palhaço é um processo de criação diário, de reinvenção de identidade, é uma construção e desconstrução representada pelo seu processo de maquiagem. " o processo solitário de criação do palhaço é marcado totalmentepela sua individualidade e introspecção, inicia-se antes da entrada em cena, o palhaço começa a nascer no momento em que ele se depara com oespelho.Cada palhaço em seu estilo próprio para se pintar, uns seguem a tradição da família, outros se inspiram em algum palhaço, existem aqueles que concebem a maquiagem tendo como referências seus próprios traços faciais" . Mas, independente disso, essa simbologia de recriação diária do palhaço dá a essa personagem uma singularidade dentre todos os demais personagens do cotidiano.
O contexto do dilema de Benjamim é o circo Esperança. Uma trupe formada pelos palhaços Pangaré (Selton Mello) e Puro Sangue (Paulo José); a dançarina Lola (Giselle Motta), lady e devassa; Guilhermina (Larissa Manoela), os olhos do circo; a cigana Zaira (Teuda Bara); Os irmãos Lorota: João Lorota (Alamo Facó) e Chico Lorota (Hassen Minussi), os músicos do circo; formando uma grande família que viaja Brasil afora fazendo rir, vendo, ouvindo, percebendo e dialogando com a vida e seus passantes.
O documentário do filme, (palhaço.doc) define o mundo do circo, o circo em si e a realidade do circo brilhantemente. O mundo circo é todo o exagero e caricatura do cotidiano vivido por cada um de nós. "... é um mundo ilusório que parte de uma total desordem e que será organizado em forma de espetáculo, o circo vem a ser o mundo das possibilidades, um que aproxima o real do irreal, ele apresenta a realidade de forma antinatural e utiliza os desejos e a imaginaçãopara fazer dessa loucura algo, perfeitamente, normal que só se perpetua graças a um mecanismo, a transmissão do saber de pai para filho" . O circo, segundo Marcelo Pontes, o diretor do documentário ... "é uma colcha de retalhos, um relicário, o circo é o último vestígio de um saber antigo, existencial e iniciático, essa arte ancestral e única é o circo". A realidade do circo é o extrapolamento do cotidiano, é o homem indo além de seus limites... " a única realidade do circo é a ilusão, essa é uma característica do cômico, traz a vida para o palco, tornando-a risível".
O mais interessante do circo é público para o qual é voltado, mesmo que não só, as crianças. Pra quem as coisas banais são grandiosas, para quem tudo é estranho, desordenado e que jamais tira folga de ser o que é...criança. Elas são os olhos do circo, que tudo vêem, tudo testemunham e iluminam o circo, sabem de tudo o que acontece, a criança é o farol da esperança.
O instrumento do circo é a emoção, aquela que não tem dono, território, endereço e, é uma parte da qual somos feitos, se não o formos completamente. O que interessa no filme O Palhaço são as paisagens interiores, aqueles personagens, o que eles pensam, o que eles sentem. A máxima evocada pela obra foi: " na vida a gente deve fazer o que a gente sabe fazer, o rato come queijo, o gato bebe leite e eu sou palhaço" Assim termina a película que faz pensar, que procura fazer uma ode aos artistas circenses e "importantizar" o riso, a alegria, o ser criança. Marcelo Pontes ainda diz: "...o palhaço permanece sempre no absurdo, sempre no imaginário, no paradoxo, no grotesco. O palhaço deve fazer rir e pensar, sonhar e refletir; o palhaço não tem psicologismos, sua lógica é física, ele pensa e sente com o corpo" e acrescenta sobre o privilégio a responsabilidade de ser um palhaço, ao contrário do que muitos pensam, que é fácil, que é uma brincadeira e situa a necessidade que a humanidade tem do palhaço. "Que privilégio e responsabilidade é ser um palhaço, assim como tantos outros espalhados mundo afora e por sociedades tão distintas, fazendo a humanidade rir e se confraternizar com suas semelhanças e diferenças". Na medida em que o mundo perde sua capacidade de brincar e se reinventar ainda mais fundamental se torna a figura do palhaço, este viajante no tempo e na história da humanidade.
Em suma, o filme de Selton Mello, como ele mesmo disse a dois anos atrás, "é o circo misturado com circo, um circo dentro do circo é o cinema dentro do circo, o circo é feito da mesma matéria do sonho, então é uma bela dobradinha" . Como drama/comédia a obra reencarnou o dizer de Oswald de Andrade " no humor reside o catastrófico e talvez toda a natureza humana". A aposta num filme brega rendeu vários prêmios (veja) e a indicação a indicação ao Oscar 2012, mas não conseguiu chegar lá. Isso não importa, com um milhão de meio de espectadores - um feito e tanto no Brasil para uma película nacional - fez sucesso também no exterior. Segue a entrevista de lançamento do filme em Madri, (aqui) - num portunhol legal, rsrrsrsrsr - apesar de brega.
E por falar em brega, perguntaram a Moacyr Franco se isso fazia diferença pra menos e se ele era brega, dando a entender que se o filme fosse mais sofisticado chegaria mais longe, ganharia mais prêmios e teria maior número de espectadores e por conseguinte ele também (Moacyr); a resposta foi brilhante: "Só vinte porcento de mim é brega o resto não vale nada" e fechando o ciclo da produção espetacular de O palhaço foi lançado no final de 2012 o livro . Fazendo um apanhado geral foi feito barba, cabelo e bigode, nada mal para um filme nacional, num país em que tradicionalmente se consome blockbuster de péssima qualidade. Afinal venceu a poesia, pois o filme, tinha como objetivo maior buscar ternura e se isso não ganha nem indicação ao Oscar ganha aplausos e muitos vivas à produção brasileira, que vai muito bem, obrigada! Viva o brega! Viva o circo! viva a ternura!