domingo, 24 de junho de 2012

HOUSISMO - parte II - O AMOR E O MEDO

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House M.D. Drama/ mistério Elenco: Hugh Laurie, Omar Epps, Robert Sean Leonard; Produtores: Paul Attanasio, Katia Jacobs; Roteiristas: David Shore, Brian Singer; Criador: David Shore; 2004-2012.
Agora é definitivo. Acabou o affair que tínhamos com o detetive da medicina Dr. Gregory House (Hugh Laurie). A viagem ao interior da personagem e as exposições de suas fraquezas, medos e fragilidades, iniciou-se no  1º episódio da  6ª temporada / Broken, em que House encontra-se num hospício - Mayfield Psychiatric Hospital. Vimos um House pedindo ajuda e com medos confessos, sem segurança, mas tentando acreditar em alguma coisa, tentando se salvar. Quando se envolve com Lydia ( Franka Potente) a cunhada de uma das pacientes, e  o que os aproxima é a música.
House via a mulher, em geral, como objeto, numa relação de prestação de serviços. Em Mayfield a contratação de serviçais era proibida, é claro, e a liberação de um paciente para sair era impossível, até segunda ordem. O que o forçava a ver as pessoas como pessoas, inclusive se tivesse que se reportar a esse aspecto, relação íntima.
No hospital psiquiátrico a carência e a fragilidade humanas estavam tão expostas, tão afloradas que eram o cartão de visitas de cada um. Num trabalho psicanalítico de exercício de confiança, House se aproxima de Lydia e a cena de entendimento entre os dois é, na minha opinião, a mais bela  de toda a  série. Um pedido de desculpas numa valsa silenciosa em que ambos dançam ao som do nada, apenas perdoando-se e confessando-se como humanos  que se rendem à essa condição. O que se segue é o exercício do despir-se de si e  de ser o que se é. O atestado da intensidade do fato, em House, são seus olhos marejados acima dos ombros de Lydia, como faróis acesos sob a escuridão e que encontraram o que procuravam sem nunca ter  tido a certeza de que existia, revelavam sua alma, retiravam a armadura e o escudo e erguiam a bandeira branca de rendição.
A impossibilidade do romance - mulher casada x paciente de um hospício - o faz cair na realidade fria e cruel que ele sempre conheceu. A cena da porta na cara de House, na varanda da tal senhora, com a  câmera aberta e house de cabeça baixa é proporcional à dos olhos marejados. A partir daí, revestir-se do seu antigo eu, o papel já conhecido de si, é mais que natural.
O renascer mais terno, possibilita mais adiante um romance, mais que esperado, com Drª Cuddy ( Lisa Eldeinstein) -  1º episódio da  7ª temporada/ Now What? . Após perder uma paciente nos escombros de um desabamento e estar completamente revoltado e impotente diante da morte, é aninhado nos braços da colega de  trabalho. Outra cena brilhante se agiganta diante do espectador: Lisa ao cuidar das feridas corpóreas de House,  beija-lhe a perna "aleijada" com uma cicatriz horrenda, numa alusão à cuidado e aceitação. House resiste ao ímpeto da fuga e se emociona, permite-se, consente ser amado, tocado, cuidado, estar sob a guarda de, confiar, colocar-se nas mãos de alguém.
O amor para House era enfraquecedor de poderes, atrapalhava a atenção, interceptava comunicações racionais, era uma espécie de criptonita. O amor o distraía, o deixava menos competente, mais normal, mais igual a todo  mundo, mais comum, alcançável, nivelável. E essa perda de seu "eu-arcabouço", essa imposição de fragilidade e a falta de capacidade de administrar outra pessoa em sua vida, colocou um ponto final na história.
O seguir em frente era imperativo para ele, mas quando passou a ser realidade na vida da Cuddy, quando percebeu não conseguir fazê-lo em sua vida emocional, a grande manifestação de descontentamento foi o ato mais abrupto - 23º episódio  da 7ª temporada/ Moving On - a invasão da casa da mulher amada com um carro, no mais perfeito estilo Mad Max, a música do episódio, composta por Jason Derlakta e Jon Ehrlich, dizia: " não tenho nada a perder exceto escuridão e sombras, amargura e padrões".
House não conseguia mudar com platéia, House não queria mudar, ele queria que o mundo se curvasse ao que ele era, e a condição para o pleno exercício, do que se institucionalizou chamar de amor, no caso de House, era a mudança.
Segundo David Shore: " House sabe o que é o amor, é um homem que tem emoções, tem sentimentos, se preocupa, mas tem como características a distância, a indiferença, a remoção de qualquer tipo de ligação e não é bom com mudanças". Usa a união que legitima o amor para ganhar trinta mil dólares em troca do green-card da pseudo-esposa Dominika ( Karolina Wydra) - 17º episódio da 7ª temporada/ Fall from Grace . O amor, segundo a máxima popular, é vida, vida para House é dor.
Vida para House é hipocrisia, um desfile de falsidades e mentiras. House não salvava vidas, ele resolvia mistérios, derrotava doenças, participava de um duelo. O que o paciente iria fazer com o que lhe restasse de hipocrisia e dor , pouco ou nada lhe interessava.
O único espaço de amor no qual  House se sentia à vontade era o da amizade. O amor escolhido com consciência, que tem respeito nas veias, que necessita do cultivo e que a possibilidade de perda é clara, matemática, lógica. O amor que é questionado sempre e revitalizado pela consideração e pelo reconhecimento da necessidade. E mesmo sendo tudo isso, House chegava aos limites dessa relação, sendo uma fonte de usurpação, que era a distância imposta e o limite testado por puro medo.
A partir da possibilidade real de perder o Wilson, único amigo, para o câncer - 19º episódio da 8ª temporada/ The C World - algo que não dependia dele, desesperou-se. Sabia que, enfim, iria ficar só de qualquer jeito e teria que lidar com isso. Esse era seu limite.
David Shore o colocou no último capítulo  - 22º episódio da 8ª temporada /Everybody Dies - conversando com os quatro "fantasmas de sua vida passada" todos querendo salvá-lo da morte eminente em um prédio em chamas, menos um, o último. Que dizia ser a morte a recompensa para tanto sofrimento e aconselhava " acabar com a dor é melhor do que a dor" e House lembrou-se de seu último paciente, um viciado em heroína, para o qual disse:  " você é uma pessoa melhor morrendo do que vivendo.... o mundo é um lugar melhor porque eu não salvei você". E a partir desses diálogos e lembranças, House morre e nasce Gregory. House deixa de ser o vivo-Morto, forja a própria morte e se transforma num morto-Vivo.
House está morto. Alguém que vivia para os usos de suas habilidades de inteligência, para o exercício de suas potencialidades intelectuais, salvava vidas porque era uma consequência da solução de enigmas.
Na verdade, a doença para House era a vida com sua dicotomia de racional/emocional. " A vida é dor"  fala repetida em vários episódios, numa alusão direta àquilo que se apresentava para ele todos os dias através de sua perna.
Em 177 episódios poucos foram os pacientes com quem House se identificou e se envolveu, dentre eles: Um paciente que se comunicava através da música - 15º episódio da 3ª temporada/Half-wit. Uma paciente que sofrera todas as atrocidades possíveis na juventude e que transformava sua dor em arte  - 23º episódio da 7ª temporada/Moving On. E o viciado em heroína que não tinha nada a perder e com quem ele trocou de corpo - 22º episódio da 8ª temporada/Everybody Dies. Todos esses foram pedaços centrais do House.
House optou por uma nova vida no último capítulo da série, abdicando dos enigmas da profissão, do julgo do convívio social, para ser um morto-Vivo. O primeiro exercício de amor de House seria amizade por Wilson, acompanhando-o nos seus últimos cinco meses de vida, apresentando, conotativamente, como carteira de identidade um atestado de óbito.
House deixou de ser House para ser Gregory em cima de uma motocicleta, símbolo de liberdade e rebeldia, sob o som da música composta para o episódio, que dizia: " divirta-se como você pode, pois os anos passam rápido como um piscar de olhos"  ao lado do seu melhor amigo. E as ilações sobre a vida/morte de House ficam por conta do espectador e de suas considerações finais acerca da personagem, de acordo com seu repertório de significações de vida. Depois de salvar tantas vidas House tenta salvar a sua própria, sendo apenas Gregory.
Com oito anos de uma história fictícia e a criação de uma personagem tão instigante, uma salva de palmas para esse gênio chamado DAVID SHORE.


domingo, 17 de junho de 2012

VIAGEM PARA DENTRO

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"Conhece-te a ti mesmo" é uma frase célebre atribuída a Sócrates, filósofo grego. Contextualizando com a nossa temporalidade,  com o nosso cotidiano, sugere que prestemos atenção em nós mesmos, insinua que não sabemos o óbvio...quem somos. Soa imperativamente.
Para nos conhecermos, em primeiro lugar temos que ter coragem, confiança, sermos fortes, querermos nos conscientizar de algo, neste caso de nós mesmos, sim ás vezes vivemos uma vida inteira sem termos consciência de nós mesmos.
 A primeira ação é o exercício da atenção, desligar-mo-nos do exterior, das coisas que atrapalham, nos distraem e nos tiram a presença de espírito, encontrar um ponto de equilíbrio em que estejamos conosco mesmo, sabendo do que acontece ao redor mas, ligados em nós mesmos, cônscios, presente no aqui e  agora. A maior dificuldade que encontramos é livrar-mo-nos de todos os pensamentos e interferências que nos distanciam do presente. Quantas vezes executamos nossos afazeres pensando em mil outras coisas que são desnecessárias àquela atividade.
O exercício do silêncio interno também é importante, conhecermos nosso silêncio, nossa respiração, sem controle externo, somente nós, conosco mesmo. Desligar-mo-nos do mundo, desprender-mo-nos e termos prazer em nos conhecer.
O que importa não é o contexto, a inserção, a adaptação e sim o aqui e o agora. Esse processo exige  exercitar a paciência, a reflexão, a conscientização e  acarreta o nascimento da humildade. Percebendo o nosso tamanho e lugar exercita-la-emos como a respiração de todo o dia.
O abandono de vícios ajuda, principalmente o de falar. Devemos/deveríamos compartilhar somente o que realmente vale a pena, e valer a pena significa algo que também ajude o outro a se encontrar e/ou mostre as digitais da nossa evolução, o que fazemos na ação é e produz o efeito espelho.
O grande mote é encontrar uma nova dimensão dentro de nós. A primeira percepção é de que nâo sabemos o que pensamos que sabemos e assumir que nada sabemos, abre espaço no HD para aprendermos o que deveríamos saber. A segunda percepção é de que é natural ter emoções como as nuvens....que passam e a terceira percepção é a de que tudo, absolutamente tudo, tem um propósito e cabe a nós, silenciosa e pacientemente, descobrir qual é.
Daí em diante aprendemos que não existe certo e errado. Tudo depende de um referêncial. O certo é em relação a quê ou a quem. Nunca vamos estar certos padronizadamente e nunca vamos estar mais errados que os outros.
Aprenderemos também que devemos seguir a intuição e que tristeza é não aproveitar a vida. Aprenderemos a conhecer a nós mesmos assumindo as nossas imperfeições. Aprenderemos que contra o medo o grande segredo é cortar laços e que a nossa função é servir, sempre. E que não devemos desistir do que amamos, e que devemos encontrar amor no que fazemos.
Aprenderemos que a perfeição, a vitória e invulnerabilidade não existem e que ser totalmente vulnerável é a única coragem. Aprenderemos que agir é ação de sabedoria e reagir é ação de tolice.
Na verdade o que existe é só o caminho, sem começo e sem fim e que a felicidade está na jornada e que esta felicidade é contagiante.
Quando aprendermos que a vida é um mistério, que o humor é a força além de todas as medidas e que a mudança é a regra sem excessão....
Quando estivermos no lugar: AQUI, no tempo: AGORA, e atendermos pelo nome de: ESTE MOMENTO, estaremos prontos.



 

Peaceful Warrior: Elenco: Scott Mechlowicz; Nick Nolte;Amy Smart; Paul Wesley. Diretores: Victor Salva e Shalimar Reodica.2006.
 



sábado, 2 de junho de 2012

OS NÃOS

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O NÃO é um monossílabo controverso. Não é bem vindo mas é necessário. Com o NÃO vem o limite que nos dá condição de convivência social. Com o NÃO vem a informação daquilo que nos inviabiliza para algumas atividades. Com o NÃO também vem a motivação que precisamos para saber o que tem por trás daquela cortina. Como saber quais são os NÃOS ? de que tipo são ? quais obedecer ou não ?
O NÃO é uma palavrinha mágica que orienta caminhos e salva vidas. Não há nada mais dicotômico que o NÃO. Vários NÃOS ouvidos no mesmo dia nos causa irritação, raiva, revolta, porque nos enjaula e nos diminui diante daquilo que queremos, mas um NÃO dito na hora certa norteia nossas ações e faz-nos parar para pensar em outras possibilidades. Um NÃO selando uma decisão nos abre portas, outros caminhos e redireciona a vida. Existem os NÃOS inquestionáveis, definitivos e alardeadores do nosso limite real: Pular do 23º andar? NÃO! Experimentar crack? NÃO! Quebrar a janela do avião? NÃO!
O NÃO é uma palavrinha/palavrão para se refletir acerca de, é um poliedro. O NÃO contém mistérios e sendo tão simples é poderoso e multiverso.
Se todos ouvissem e repeitassem os NÃOS teríamos menos corrupção, teríamos mais ética, teríamos menos problemas sociais, teríamos menos pais e mães chorando, teríamos limites, saberíamos respeitar o outro como legítimo outro, porque o limite do que podemos fazer e até onde podemos ir, termina quando começa o do outro e esse limite é dado por um NÃO.
Se existe uma palavra que não pode tirar férias é o NÃO. A hegemonia do sim seria o nosso verdadeiro caos e para se usufruir de todo o poder do NÃO ele deve ser usado a partir do berço. É o cerceador de nossos limites. Apresente o NÃO a quem você ama.

domingo, 27 de maio de 2012

HOUSISMO - parte I

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Dr. House M.D - Elenco: Hugh Laurie, Omar Epps, Robert Sean Leonard; Produtores: Paul Attanasio, Katia Jacobs; Roteiristas: David Shore, Bryan singer; Criador: David Shore.
Terminou essa semana, oficialmente, nos EUA uma série televisiva que fez sucesso no mundo inteiro e foi sagrada como a série mais vista no planeta. Exibida pela FOX de 2004 a 2012 e aqui no Brasil pelo Universal Channel. A última temporada completa, inclusive o último episódio, já está disponível na Web. Aqui no Brasil só termina em junho. Trata-se  de Dr. House uma série médica, criada por David Shore, um escritor canadense aficcionado por Sherlock Holmes, e que tem como roteiro histórias que colocam um médico como investigador e anti-herói, doenças como vilões a serem vencidos e a jornada de diagnóstico e cura como uma aventura imiscuida com o cotidiano. Indicada e premiada  durante os oito anos de exibição, Dr. House, interpretado brilhantemente por Hugh Laurie é um médico infectologista e nefrologista, pessoa comum, com problemas comuns, com personalidade bastante controversa, mau-humorado, ceticista, misântropo (anti-social), sarcástico, sem ética, manipulador, chantagista, apostador compulsivo dentre outras coisas.
O contexto é um hospital universitário fictício em New Jersey, as doenças abordadas/encenadas são raras e reais, a série contou com uma consultoria médica permanente para orientação.
A influência de Sherlock Holmes é visível e gritante. A similaridade do nome, Holmes remete a Home que em tradução livre é lar; House da mesma forma é casa; a logística de solução dos casos - método socrático de investigação filosófica, condução de raciocínio e processo de reflexão; o caráter psicológico usado para desvendar os mistérios; o poder de observação e dedução; o uso da bengala; ambos tocam instrumentos musicais: Holmes toca violino, House toca piano; a dependência química: Holmes é viciado em cocaína, House em Hidrocodona - Vicodin; a amizade de Holmes com John Watson, da mesma forma a de House com James Wilson; o maior inimigo de Holmes era o professor Moriarty, o homem que tenta matar House chama-se Moriarty; Ambos são desafiados por uma mulher  que os vence, em Sherlock Holmes é Irene Adler, sendo mais inteligente que ele no conto o Escândalo na Boemia, e citada em outros contos como o desafio a altura; em House é Esther Doyle - qualquer semelhança com o sobrenome do autor de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, também é proposital - ela é uma obsessão por não haver conseguido diagnosticar a doença que a levou  a óbito, ou seja, vencido pela morte; o número do apartamento em que moram é o mesmo, 221B.
Gregory House era, como personagem, alguém que tinha a missão confessa de ser ele mesmo com todos os defeitos e imperfeições e a coragem de encarar todos os entreveros da vida assumindo as consequências. Era alguém que sofria de uma dor insuportável devido a necrose do músculo quadríceps após uma cirurgia mal sucedida, deixando-o manco, o que o levava aos analgésicos e que o levava ao vício. Era alguém que sabia seu pai de criação não ser seu pai biológico, sem ninguém o haver contado, somente pelas percepções e considerações que fazia, vindo a confirmá-lo depois. Alguém que sendo um gênio convivia mal com inteligência comum. Alguém que não respeitava regras e o fazia de propósito, assistia novelas médicas no trabalho, jogava jogos eletrônicos na frente da equipe e dos pacientes, fazia refeições na UTI. Alguém que afrontava o poder instituído. Alguém que usava a irreverência como arma para constrangimento. Alguém que tinha o deboche como marca registrada, alguém para quem a vida era um jogo a ser jogado com placar.
Mas também alguém que se importava, sem confissões ou demonstrações. A morte de um paciente era uma perturbação insane, a culpa pela morte de uma colega, Drª Amber ( Anne Dudek), a inquietação pelo suicídio de um médico da equipe, Drº Kutner (Kal Penn), não se perdoando por não haver percebido algum indício. Alguém que confrontava Deus e disputava poder com o que se fabrica de imaginário do Todo-poderoso.
O fenômeno de ter um grande público no mundo inteiro admirando, acompanhando e apreciando um anti-herói que usurpa os amigos, chama a todos de idiotas, invade o consultório da psicanalista da ex-mulher para roubar-lhe a ficha médica e saber a quantas anda a relação dela com o atual marido, que é capaz de agredir um paciente para mostar que está certo, que é capaz de tirar um pedaço da orelha do pai de criação no velório para fazer um teste DNA, alguém que tem o prazer excepcional de estar sempre certo, faz pensar.
O que de fato é admirável no Dr. House não são suas sandices mas, o ponto de intersecção que algumas de suas posturas tem conosco, com o que somos escondido ou com o que gostaríamos de ser. Ter a liberdade de dizer o que quiser e a capacidade de arcar com as consequências, a sensibilidade reprimida, que tanto a modernidade nos impinge, e no caso do House, evidenciada pela música e sua transformação diante dela.
A frase de cabeceira de Dr. House era " Todos mentem" numa espécie de lema de vida  usado como registro oficial da hipocrisia humana institucionalizada. A necessidade de mostrar as pessoas felizes que eram pseudo-felizes, como que numa missão de resgatá-las da ilusão, tendo a realidade nua e crua como o grande libertador, a necessidade de desconstrução do mundo do outro para justificar que a insatisfação com o mundo é que era o normal. A forma matemática, clean e objetiva de ver a vida e a assunção da realidade, seria um atestado de sanidade e lucidez.
House tinha medo de quase nada. Não tinha medo de doenças desconhecidas, não tinha medo da solidão, não tinha medo de perder amigos, não tinha medo de perder o emprego, não tinha medo da opinião alheia, não tinha medo do incerto, não tinha medo do futuro, não tinha medo do manicômio, não tinha medo da prisão, exceto de perder a lucidez.
A grande arma, o grande mote de House, os cabelos de Sansão era a lucidez. O momento mais crucial da personagem foi quando  pediu ajuda ao amigo Wilson por estar alucinando. Entendeu que perderia toda guerra se não pedisse ajuda, pediu, aceitou, esperneou, cooperou e venceu, este foi o único momento em que House baixou a guarda.
E quando todos pensaram (personagens e público) que depois do manicômio e da prisão ele mudaria, enganaram-se. Ele gostava de ser quem era, se amava com seus defeitos e imperfeições, os reconhecia e se perdoava e esfregava suas virtudes (inteligência, perspicácia, a presença de espírito, competência) na cara de todos sem a menor modéstia.
House se conhecia e vivia seus conflitos como desafios naturais, com os quais deveria conviver, House pedia desculpas, se reconhecia humano, chafurdava na lama do humano e tomava banho na condescendência alheia. House não tinha vergonha de seus erros, seguia em frente.
 O seguir em frente de House talvez seja o motivo da apreciação pública, o que mais se parece com o cotidiano de todos nós, o que traduz a necessidade de ação para continuar a vida. Não havia, na série, ações sobre-humanas ou lições de moral. O que havia era vida com cara de vida. O que se viu foi um ser humano em suas redes sociais se debatendo com seus conflitos internos, sua obrigações profissionais, sua capacidade cognitiva, sua condição de reles mortal e sua logicidade em relação à fantasia.
O que, talvez, tenha conquistado o público foi o quanto de igual temos e o quanto cultivamos uma pequena inveja da coragem de House de ousar ser quem era de fato e pagar todos os preços no melhor estilo: " Quem convive comigo sou eu mesmo".
Quanto ao amor? O exercício da sensibilidade no contato com o outro? Ah! isso é assunto pra outra prosa.


domingo, 6 de maio de 2012

A DESIMPORTÂNCIA

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Vivemos a vida procurando coisas importantes para fazer, assistir uma peça de teatro importante, participar de uma palestra importante, termos amigos importantes, sermos importantes no nosso cotidiano, no contexto familiar, social, profissional.
Na nossa cultura a palavra importância tem peso relevante. Somos respeitados se temos ao nosso redor "importâncias" e não reparamos que até a importância é devir. O que foi importante ontem já não o é hoje, o que é importante hoje não o será amanhã.
A importância também é relativa, transformamos coisas simples em coisas importantes, porque são nossas. Algo que é importante para uns pode não sê-lo para outros. Categorizamos a importância, damos prioridades àquilo que consideramos mais importante e elegemos as que são menos importantes. Fazemos isso para sistematizarmos nossa vida.
Damos tanta importância a importância que nos esquecemos do valor da desimportância. Associamos a desimportância com negativismo, rejeição, desprezo, não aceitação, mas a desimportância tem sua importância.
A desimportância faz-nos desapegar, saber largar, destralhar, seguir adiante. Se assim não fosse, teríamos um HD de memória emocional tão grande e extenso de situações que não mais fazem parte de nosso cotidiano, que comprometeríamos nossa qualidade de vida psíquica, não suportaríamos tantas informações desnecessárias tão vívidas e punjantes quanto à época em que aconteceram os fatos. Se assim não fosse, teríamos que ter um cômodo a mais em nossas casas para guardar todas as quinquilharias das quais não conseguiríamos nos desapegar, desde aquela fralda com a qual dormíamos quando bebês, passando pelo primeiro soutien até a última aliança do último relacionamento, comprometendo nosso aproveitamento de espaço e aumentando a conta de IPTU.  A desimportância transforma sensações, sentimentos e objetos em lembranças para que possamos ter uma história, um referencial sem excesso de bagagem.
A forma de lidar com a desimportância diz que nível de desprendimento temos, a velocidade na qual cresceremos, a maturidade que possuimos para lidar com situações novas. Assimilar mal a desimportância nos adoece.
A desimportância é o destralhar das energias velhas, deixando fluir as novas. A desimportância é mudança de nível no curso da vida. A desimportância é a chave para sobreviver sem traumas e certificado de saúde mental e emocional. Se pensarmos bem a desimportância é mais importante que a importância. Viva a desimportância!

domingo, 29 de abril de 2012

TUDO PASSA

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Dizem à boca pequena que o  médium Chico Xavier tinha uma inscrição em sua cabeceira que dizia "Tudo Passa" e que ele a usava para lembrar, num momento de muita tristeza, que ela passaria e este artifício lhe oferecia conforto e alívio para o pesar que sentia, mas ele também a usava para os momentos de alegria e felicidade, para ter consciência que estes também passariam. Logo, não era para se entusiasmar em demasia nem se decepcionar quando não mais estivessem lá. Se era verdade ou não, não importa.
O que importa é a mensagem que estas duas palavras podem nos trazer e as mudanças de atitudes diante das questões da vida. O cultivo da paciência e serenidade que saber disso nos possibilita.
Somos passageiros. Passageiros de uma grande viagem, de uma grande ventura. E escolhemos, pedimos, precisamos estar na escola da vida, do mundo, da terra para "brincarmos de casinha" em papéis sociais e espirituais que achamos ser o nosso tudo.
Quando vejo imagens de estradas engarrafadas à distância, à noite, em saídas de feriados prolongados, aquelas filas infindáveis de carros com suas luzes de freio acesas fazendo um caminho de formiga lento, lindo e vermelho - embora incômodo para quem os enfrenta - fico imaginando ser esta a cena de um filme, o qual assistimos de fora e que é tão importante estar nele que fazemos qualquer negócio para sermos contratados, mesmo que como figurantes.
E quando fazemos parte do elenco, reclamamos do lanche, dos aposentos, do salário, do lugar do nosso nome nos créditos. Sem a menor lembrança de como quisemos, ansiamos, lutamos, pedimos, imploramos e precisamos estar nele, fazer parte da montagem.
Essa cena pictórica em minha mente/alma é o que me faz calar a boca quando dá vontade de reclamar, é o que me faz valorizar cada quadro e imaginar que o que não conteceu ainda é porque não chegou a hora de ser gravado ou não faz  parte do script. Fazemos parte de uma grande produção que também passa.
Logo, aproveitemos a cena daquele pôr-do-sol glamouroso, daquelas árvores floridas na primavera, do cachorrinho brincando com um copo vazio no pátio da escola, daquela criança procurando a tomada do microondas, do gato que procura o som atrás da T.V, daquele abraço de amigo que de longe se sente o calor, do beijo de namorados com saudades, de tudo o que a gente presta atenção, chora e se emociona num filme. Por que isso acontece do nosso lado e não enxergamos da mesma forma? Porque olhamos pra longe.
Olhemos para perto, pro nosso redor tendo a noção de que aquela cena que vemos não mais se repetirá, portanto selecionemos as melhores, as mais belas, as mais significativas, as mais cativantes, as mais calientes, as mais edificantes. Porque a única coisa eterna é aquilo que está dentro do que você pensa que é.....VOCÊ.




domingo, 22 de abril de 2012

A BELEZA DA VIDA

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 A beleza da vida não está só num dia claro de sol, no mundo de cores que a luz descortina diante dos nossos olhos.
Não está só nas paisagens deslumbrantes que a natureza nos oferece ou nos sons sublimes que os pássaros, o vento ou a música nos apresenta.
A beleza da vida está nos primeiros passos, nas primeiras vezes de tudo. No aprendizado de andar de bicicleta, no dia especial que é ver alguém andar sozinho pela primeira vez, no falar a primeira palavra, na descoberta de significado de uma palavra escrita, na decodificação da vida.
É uma modalidade de beleza cega, na qual não é o olhar que é agraciado, mas alma. O deleite é do espírito.
Ver alguém dirigir sozinho pela primeira vez, seja adolescente ou idoso.Ver a reação de alguém que vê o mar pela primeira vez. Saber pela experiência que essas primeiras vezes são absolutamente tudo, são alicerces para outras aprendizagens, empreendimentos, construções de uma jornada
Essas primeiras vezes de tudo, que é de todos são os marcos de uma história, e visto de fora com olhos de ver, é deslumbrante.
A beleza não é só plástica é também etérea, sensível e acima de tudo contemplável, não só pelos olhos mas também pelos sensores da alma.
Beleza é quase que  concretude, é tão penetrável em tudo o que somos e o que fazemos, que é quase palpável.
Beleza, um brilho que reluz aos olhos de quem tem olhos de ver e  que brota de quem sabe viver, de quem sabe aprender, porque o prendizado é belo. Seu processo é uma construçao explendorosa na nossa existência.
A beleza da vida está em saber aprender. Ser bonito é ser bom aprendiz.